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sofrimento psíquico

Um em cada quatro adolescentes acha que ninguém se importa — e isso não se resolve com informação

Um em cada quatro adolescentes acha que ninguém se importa — e isso não se resolve com informação

A Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar, a PeNSE, do IBGE, ouviu 118.099 adolescentes de 13 a 17 anos em 4.167 escolas públicas e privadas do país. É uma amostra enorme, do tipo que costuma virar manchete por um dia e sumir. Entre dezenas de indicadores, há um que custa a passar: 26,1% dos adolescentes concordam que ninguém se importa com eles. Entre as meninas, 33%. Entre os meninos, 19%.

Ao lado dele, outro número da mesma pesquisa: 36,5% dizem que os pais ou responsáveis não entendem seus problemas.

A reação quase automática diante disso é pensar em informação. Campanha, palestra na escola, cartilha, semana temática. Só que informação é justamente o que não falta. Esta geração sabe nomear ansiedade, sabe o que é crise de pânico, sabe dizer "estou em burnout" antes dos dezoito. O vocabulário está impecável. O que está emperrado é outra coisa.

"Ninguém se importa" não é uma afirmação sobre o mundo

Se você levar essa frase ao pé da letra, ela quase sempre é falsa. O adolescente que a diz costuma ter alguém que o leva à escola, que paga o cursinho, que fica acordado esperando ele chegar, que se preocupa a ponto de perder o sono. Os fatos, olhados de fora, desmentem a frase.

E é exatamente aí que os adultos escorregam. Diante da frase, respondem com a prova: "como assim ninguém se importa, olha tudo o que a gente faz por você". A intenção é boa e o efeito é desastroso, porque o que o adolescente recebe de volta é um desmentido. Ele disse algo sobre si e ouviu uma correção factual.

A psicanálise não escuta essa frase como um erro de percepção a ser consertado. Escuta como um enunciado sobre o laço — sobre o lugar que ele ocupa, ou não ocupa, no desejo do outro. Não é uma queixa sobre a quantidade de cuidado recebido. É uma pergunta, mal formulada e por isso mesmo urgente: eu conto para alguém como sujeito, ou só como responsabilidade?

A distância entre ser cuidado e ser escutado

Cuidado responde à necessidade. Comida, transporte, dentista, material escolar, horário de dormir. É indispensável e é mensurável — dá para listar tudo o que se fez.

Escuta responde a outra coisa, que não é necessidade e não se mede: o desejo. E o desejo tem uma característica incômoda para quem cuida — ele não vem com instruções. Não se satisfaz com a entrega correta do item pedido. Muitas vezes nem quem fala sabe o que está pedindo.

Na clínica, essa distância aparece o tempo todo. Famílias que fizeram tudo o que estava ao alcance, com afeto genuíno, e um filho que segue dizendo que ninguém o vê. Não é ingratidão. É que amor e escuta não são a mesma operação. Dá para amar muito alguém e nunca ter perguntado, de verdade, o que se passa com ele — sem já saber a resposta antes.

Por que o conselho não pega

Toda vez que um adolescente abre a boca sobre algo que dói, existe um risco alto de a conversa ser encerrada por uma frase bem-intencionada. "Isso passa." "Você não tem motivo pra estar triste." "Na sua idade eu tinha problema de verdade." "Já tentou fazer exercício?"

Cada uma dessas frases faz a mesma coisa: transforma um sofrimento em um problema com solução conhecida. E problema com solução conhecida não precisa mais ser falado. A conversa acaba ali, e o que ficou de fora — que era o essencial — volta para dentro.

Há ainda um detalhe específico da adolescência que complica. O adolescente está, por estrutura, ocupado em destituir o adulto do lugar de quem sabe. É trabalho psíquico legítimo, é assim que alguém deixa de ser filho-criança. Então o adulto que responde a partir do saber ("eu sei o que você precisa fazer") está oferecendo justamente a mercadoria que aquele momento da vida precisa recusar. Não é birra. É construção.

O silêncio que sobra

Quando falar não muda nada, sobra o silêncio — e ele costuma ser lido como fechamento, fase, "não fala comigo mais". Às vezes é o contrário: é o resto de alguém que tentou e concluiu que ali não havia espaço. O quarto fechado nem sempre é fuga. Às vezes é o único lugar onde ele não precisa administrar a preocupação alheia.

A adolescência não é uma fase de passagem

Existe uma leitura confortável da adolescência como turbulência hormonal a ser atravessada com paciência até a pessoa "voltar ao normal". A psicanálise trabalha com outra hipótese, bem menos tranquilizadora.

Freud descreveu a puberdade como um segundo tempo — não como o começo da vida sexual e afetiva, mas como o momento em que tudo o que foi vivido na infância volta a ser lido, agora com outras palavras e outro corpo. É um trabalho de revisão. Cenas antigas, que na época passaram sem sentido, de repente ganham peso. Coisas que os pais disseram anos atrás voltam com força que ninguém previa.

Por isso a adolescência não é só sobre o presente. Ela é o momento em que a história de alguém é reescrita — e reescrita dói. Não é um mau humor prolongado. É um sujeito se fazendo, com material que ele não escolheu.

O que a escuta clínica oferece de diferente

Um espaço em que a fala não é avaliada. Isso parece pouco e é raríssimo. Em casa, o que se diz tem consequência: preocupa, magoa, gera castigo, muda a rotina da família. Na escola, o que se diz vira registro. Entre amigos, vira reputação.

No consultório, a fala não precisa dar certo. Pode ser contraditória, pode mudar na semana seguinte, pode ser feia. O analista não está ali para concordar nem para corrigir, e não vai transformar aquilo em uma tarefa. Essa suspensão do julgamento é o que permite que apareça algo que o próprio adolescente ainda não sabia que pensava.

Não é um processo rápido e ninguém honesto promete cura. É um trabalho de dar contorno ao que estava solto — e, com o tempo, poder escolher em vez de repetir.

E os adultos, o que fazem com isso

A parte mais difícil de suportar é não entender. A pergunta "o que você tem?" quase sempre é feita com uma resposta já engatilhada. Vale trocar por perguntas que não têm gabarito e aguentar o silêncio que vem depois delas, sem preencher.

Vale também olhar para o outro dado da PeNSE, que é estrutural e não individual: menos da metade dos adolescentes estuda em escolas que oferecem algum apoio psicológico — 45,8% na rede pública e 58,2% na privada. Profissionais de saúde mental estavam disponíveis para 34,1% dos estudantes. Quando dois terços de uma geração não têm a quem recorrer dentro da instituição onde passam a maior parte do dia, "ninguém se importa comigo" deixa de ser só uma percepção subjetiva.

Quando o assunto é mais grave

A mesma pesquisa registrou que 18,5% dos adolescentes acham que a vida não vale a pena ser vivida — 25% entre as meninas, 12% entre os meninos. Isso não é diagnóstico e não deve virar rótulo em ninguém. Mas é sinal de que a conversa precisa incluir ajuda profissional.

Se você ou alguém que você conhece está passando por isso, o CVV atende de graça, 24 horas, pelo telefone 188, por chat e por e-mail. Nas emergências, os CAPS e as unidades de saúde do SUS são a porta de entrada. Procurar um psicanalista, um psicólogo ou um médico não é o último recurso — em geral é o primeiro que ninguém tomou.

O que a psicanálise sustenta, no fim, é bem modesto e bem difícil: alguém disposto a ouvir sem já saber. Não é pouco, para uma geração que aprendeu a nomear tudo o que sente e segue com a impressão de que isso não chega a lugar nenhum.

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