A Previdência Social concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária ligados a transtornos mentais e comportamentais em 2025. É o segundo recorde consecutivo. Ansiedade responde por 166.489 licenças; depressão, por 126.608. Somados, os transtornos mentais só perdem para as doenças da coluna como motivo de afastamento do trabalho no Brasil.
Números assim costumam virar manchete por um dia e sumir. Vale segurá-los um pouco mais, porque eles descrevem um fenômeno que a clínica vê chegar de outro jeito: não em planilha, mas em frases.
A frase que antecede o atestado
Quem procura análise depois de um afastamento raramente começa falando do afastamento. Começa dizendo algo como "eu não aguentava mais, mas achava que ia passar". Ou: "eu só percebi quando o corpo travou". Ou ainda, a mais comum de todas: "eu não sei o que aconteceu, eu estava dando conta".
Repare no verbo. Dar conta. Ele aparece com uma frequência que não é acaso. É como se existisse uma contabilidade íntima em que a pessoa é, ao mesmo tempo, quem cobra e quem paga — e em que parar nunca é uma opção legítima, só um fracasso adiado.
A psicanálise não lê essa frase como falta de informação sobre saúde mental. As pessoas sabem. Elas leram os posts, ouviram os podcasts, conhecem a palavra burnout. O que os 546 mil afastamentos sugerem é outra coisa: que saber não basta, porque não é do saber que se trata.
Quando o corpo interrompe o que você não interrompeu
Há uma cena que se repete no consultório com variações mínimas. A pessoa descreve meses de sinais — insônia, irritação, aquele aperto no peito no domingo à noite, o esquecimento estranho, a vontade de chorar sem motivo aparente — e descreve também o que fez com cada um desses sinais: administrou. Tomou café. Trocou de app de meditação. Prometeu que em dezembro tirava férias.
Até que algo cede. E o que cede quase sempre é o corpo.
Freud descreveu isso de um jeito que continua útil mais de um século depois: o sintoma não é só um defeito a ser removido. Ele é uma formação de compromisso — uma solução, precária e cara, para um conflito que não encontrou outra via. O corpo que trava está fazendo, à força, o que a pessoa não conseguiu se autorizar a fazer por decisão: parar.
Isso não romantiza o adoecimento. Não há nada de nobre em um transtorno de ansiedade. Mas muda a pergunta. Em vez de "como eu volto logo ao normal?", aparece outra, bem mais difícil: o que, exatamente, eu não podia interromper?
Não é só o trabalho — e também não é só você
Duas leituras rápidas disputam esse tema, e as duas erram por simplificação.
A primeira diz que o problema é individual: falta de resiliência, geração frágil, gente que não sabe lidar com pressão. Essa leitura tem um efeito prático conveniente — devolve todo o custo para quem já está pagando.
A segunda diz que o problema é só estrutural: metas impossíveis, gestão tóxica, jornadas que invadem a noite. Isso é verdadeiro e importa. Mas quando fica sozinho, esvazia a pessoa de qualquer implicação — e uma pessoa sem implicação nenhuma é também uma pessoa sem saída própria.
A escuta psicanalítica fica no lugar incômodo entre as duas. Sim, existe uma engrenagem que adoece. E existe, dentro de cada um, um jeito muito particular de se enganchar nela. Duas pessoas na mesma equipe, sob a mesma pressão, adoecem de formas diferentes — ou uma adoece e a outra não. A diferença não é mérito. É história.
O que a repetição está tentando dizer
Um dado do levantamento merece atenção: das 546.254 concessões, 346.613 foram para mulheres e 199.641 para homens. Cerca de 63% dos benefícios foram concedidos a mulheres. Não se explica isso com uma frase só — há dupla jornada, há cuidado não remunerado, há diferenças no modo como homens e mulheres pedem (ou não pedem) ajuda, há vieses de quem diagnostica.
Mas há também algo que a clínica escuta com frequência: a exigência de ser suficiente em várias frentes ao mesmo tempo, sem que nenhuma delas possa ser abandonada sem culpa. Não é uma exigência que venha só de fora. Ela é, em boa parte, herdada — costurada muito cedo, em frases ditas por outros que viraram voz própria.
É aí que a psicanálise trabalha. Não em convencer alguém de que ele deveria descansar (isso todo mundo já sabe), mas em descobrir a quem, afinal, aquela pessoa não pode decepcionar. Quase nunca é o chefe. Quase sempre é alguém bem mais antigo.
Voltar ao trabalho não é o fim da história
O afastamento tem uma armadilha silenciosa: ele resolve o sintoma agudo e pode não tocar em nada do resto. A pessoa se afasta, melhora, volta — e, em alguns meses, o mesmo arranjo produz o mesmo resultado. A repetição é justamente isso: não o azar de cair duas vezes no mesmo buraco, mas a fidelidade a um roteiro que a gente não escreveu conscientemente e mesmo assim insiste em encenar.
Um processo de análise não promete que o trabalho ficará leve. Não é isso que ele faz, e desconfie de quem promete. O que uma análise oferece é a chance de que aquele roteiro fique audível — e, ao ficar audível, deixe de ser destino.
Às vezes o resultado é mudar de emprego. Muitas vezes não é. Muitas vezes o que muda é a possibilidade de dizer não sem sentir que se cometeu um crime, ou de perceber que a urgência que parecia vir da empresa vinha, na verdade, de dentro.
Um bilhete, não um veredito
Se você chegou até aqui reconhecendo alguma dessas cenas, vale dizer o óbvio com todas as letras: um texto não substitui uma avaliação. Diagnóstico e conduta médica são de médicos; avaliação psicológica é de psicólogos. Se há sofrimento intenso, sintomas físicos persistentes ou pensamentos de morte, procure atendimento — inclusive pelo SUS, pela unidade básica de saúde ou pelo CAPS mais próximo. Se houver risco imediato, o CVV atende pelo 188, 24 horas.
O que a psicanálise acrescenta é outra ordem de escuta. Ela trata o sintoma menos como um erro de sistema e mais como um bilhete — mal escrito, escrito com o corpo, entregue na pior hora possível, mas ainda assim um bilhete. Alguém precisa lê-lo.
Meio milhão de bilhetes foram entregues no Brasil em 2025. Seria uma pena tratá-los apenas como estatística.
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