A Fiocruz vai sediar, entre 9 e 11 de novembro de 2026, em Fortaleza, o encontro "Novos ventos trazem novos ares: perspectivas interculturais para saúde e educação". São 40 horas de carga horária ao longo de três dias. O evento reúne pesquisadores, estudantes, profissionais, gestores, adolescentes e representantes da sociedade em torno de um tema que atravessa consultórios, escolas e políticas públicas: a saúde mental de adolescentes.
A escolha do tema acompanha um movimento concreto. A atenção ao sofrimento psíquico nessa faixa etária tem ganhado espaço no debate público. A adolescência virou um ponto de tensão entre urgência clínica e respostas apressadas. É nesse intervalo que a psicanálise tem algo a dizer. Não para competir com protocolos ou diagnósticos, mas para sustentar uma pergunta que a pressa costuma apagar: o que esse sofrimento está dizendo sobre a história singular de cada jovem? Vale lembrar o quanto o trabalho brasileiro tem adoecido, como mostram os 546 mil afastamentos por sofrimento mental: o mal-estar não espera a vida adulta para começar.
O encontro da Fiocruz e o mal-estar adolescente: por que isso importa
O encontro integra três atividades científicas: o 2º Seminário Multicêntrico e Internacional de Pesquisas sobre a Promoção da Saúde Mental de Adolescentes, o 2º Encontro Internacional da Rede Andorinhas (Enfermagem em Saúde Mental da Adolescência) e o IV Encontro Internacional de Sociopoética e Abordagens Afins. As inscrições estão abertas no Campus Virtual Fiocruz.
A proposta é ambiciosa e, do ponto de vista psicanalítico, interessante: articular pesquisa, ensino, extensão e políticas públicas sem perder de vista a interculturalidade. Ou seja, reconhecer que o sofrimento adolescente não se expressa da mesma forma em todos os lugares, classes e culturas.
A tese que sustento aqui é simples. A escuta psicanalítica, aquela que leva a sério o inconsciente, oferece uma via de acesso ao sofrimento adolescente que não o reduz a categoria diagnóstica. E a perspectiva intercultural proposta pelo evento dialoga diretamente com essa escuta, porque ambas partem da alteridade: o outro não é um caso, é um sujeito.
Adolescência e psicanálise: a construção subjetiva em tempos de crise
Freud não escreveu um tratado sobre a adolescência. Mas sua obra sobre a puberdade já indicava que ali algo se reordena: as pulsões sexuais se reorganizam, os laços familiares são questionados, o corpo muda. Não é apenas uma fase de transição biológica. É um trabalho psíquico.
Lacan, por sua vez, pensa a adolescência como um momento em que o sujeito precisa renegociar sua posição diante do Outro, dos ideais, das identificações. A chamada "travessia" adolescente não é passagem automática. Exige elaboração. E nem toda perda encontra um ritual que a acolha, como discutimos em o luto não tem cinco fases: o adolescente também precisa de tempo e de palavra para nomear o que perdeu.
Daí a expressão "trabalho do adolescente", usada por autores da clínica psicanalítica: um esforço de subjetivação diante de algo que excede, que não está simbolizado. A angústia, nesse contexto, não é apenas sintoma. É afeto estruturante, sinal de que há um excesso a ser tratado, e não simplesmente eliminado.
O sofrimento psíquico na adolescência, portanto, pede leitura singular. Dois jovens com a mesma queixa podem estar em lugares absolutamente distintos em suas histórias. Tratá-los como iguais porque compartilham um rótulo é perder o essencial.
Angústia e sofrimento psíquico na adolescência: para além do diagnóstico
Freud distingue a angústia como sinal de alarme, uma resposta do eu diante de um perigo, do sofrimento difuso que não encontra nome. Lacan radicaliza: a angústia não engana, ela sinaliza o que não pode ser dito.
Essa diferença importa na clínica com adolescentes. Há uma tendência contemporânea de transformar todo mal-estar em transtorno: ansiedade generalizada, depressão, transtorno de conduta. Não se trata de negar a existência desses quadros, mas de perguntar o que se perde quando o diagnóstico se torna a única linguagem disponível.
Perde-se a história. Perde-se o inconsciente. Perde-se a possibilidade de que o adolescente diga algo sobre si que não esteja previsto no manual.
A escuta psicanalítica não descarta a avaliação clínica, mas não se encerra nela. Ela aposta que o sofrimento tem sentido, ainda que esse sentido não esteja disponível de imediato. E considera que o contexto sociocultural não é pano de fundo: é parte da expressão do sofrimento. Um adolescente em situação de vulnerabilidade social não sofre da mesma forma que outro com acesso a cuidado e escuta.
Perspectivas interculturais: o diálogo entre a psicanálise e outras culturas
A interculturalidade proposta pelo encontro da Fiocruz não é apenas um adorno metodológico. Ela implica reconhecer que as formas de adoecer e de cuidar variam entre culturas, territórios e grupos sociais.
A psicanálise, desde Freud, dialoga com a cultura. O sofrimento não é apenas intrapsíquico, ele se tece com as exigências da vida coletiva. Lacan, ao pensar o sujeito como efeito da linguagem e do laço social, reforça essa perspectiva.
Na clínica com adolescentes, isso significa evitar universalismos. Não existe "o adolescente", existe cada adolescente em seu contexto. A angústia pode se expressar no corpo, no silêncio, na explosão, na apatia, no uso de substâncias, nas redes sociais. A forma muda. O que não muda é a necessidade de que alguém escute. E as redes, hoje, ocupam boa parte desse palco, como discutimos em a tela que nos olha.
Clínica psicanalítica com adolescentes: desafios e apostas
Atender adolescentes impõe desafios específicos. A resistência é frequente, e não é um obstáculo a ser vencido: é parte do processo. A transferência, esse vínculo afetivo que se estabelece com o analista, precisa ser manejada com cuidado, sobretudo quando o adolescente testa limites, silencia ou provoca.
O manejo da angústia também exige atenção. O analista não é um técnico que aplica protocolos. É alguém que sustenta uma escuta ética, que acolhe o sofrimento sem transformá-lo imediatamente em explicação.
Diante das novas formas de mal-estar (redes sociais, identidades em movimento, pressões por desempenho), a psicanálise não oferece respostas prontas. Oferece uma posição: a de quem escuta o inconsciente e a singularidade, sem reduzir o sujeito a um diagnóstico.
O encontro da Fiocruz, com sua aposta na interculturalidade e na articulação entre pesquisa e cuidado, é uma oportunidade para reafirmar essa relevância. Não se trata de defender a psicanálise contra outras abordagens, mas de insistir que a saúde mental de adolescentes não se faz sem escuta.
Se você é adolescente, familiar ou profissional e percebe que o sofrimento está pesando, buscar um psicanalista ou profissional de saúde mental é um passo possível. Não para calar a angústia, mas para dar a ela um lugar de palavra.
Para ir além, leituras
- Conferências Introdutórias à Psicanálise, Freud, a porta de entrada clássica, na voz do próprio Freud.
- Um caderno de capa dura para journaling, para levar a reflexão do texto pro papel.
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