PsicoCast
Saúde & Bem-estarAgende uma sessão
Psicanálise

A escuta que não resiste: por que 7 em cada 10 brasileiros já pedem conselho a uma IA

A escuta que não resiste: por que 7 em cada 10 brasileiros já pedem conselho a uma IA

Um número do Mind Health Report 2026, pesquisa anual da AXA feita com o Ipsos, ficou girando aqui há dias: 70% dos brasileiros já recorrem a ferramentas de inteligência artificial para lidar com questões da própria saúde mental. A média global é 63%. Estamos acima dela.

O mesmo levantamento traz um segundo dado, mais desconfortável: entre os brasileiros que usam essas ferramentas, 40% confiam mais na plataforma do que em um profissional para receber conselho. E o Brasil aparece com índice 59,8 na escala do estudo, abaixo da média global de 61,8 — a faixa que os autores chamam de "definhando", nem doente nem florescendo. Custo do tratamento aparece como barreira central.

A leitura fácil seria a indignada: as pessoas trocaram o analista por um robô. Não me interessa essa leitura. Ela é preguiçosa e, pior, não escuta o que o número está dizendo.

O que se procura quando se procura conselho

Quem abre uma janela de chat às três da manhã e começa a escrever sobre o casamento que está estranho não está fazendo uma escolha entre duas modalidades de tratamento. Está fazendo o que se faz desde sempre: procurando alguém que aguente ouvir aquilo.

A psicanálise tem um nome antigo para essa procura. Freud percebeu, quase a contragosto, que o paciente não chega ao consultório apenas com um sintoma — chega com uma disposição a depositar no outro uma expectativa enorme, herdada de todas as figuras que já ocuparam o lugar de quem sabe. Ele chamou isso de transferência, e passou o resto da vida entendendo que ali estava o motor do tratamento, não o seu ruído.

O ponto é que a transferência não precisa de um humano do outro lado para se instalar. Ela se instala em cartas, em diários, em ídolos, em vozes. Se instala num campo de texto. Que se instale numa IA não é anomalia nenhuma; é a coisa mais previsível do mundo.

O problema não é falar. É não encontrar resistência.

O que muda, e muda muito, é o que acontece depois que a fala sai.

Uma ferramenta de linguagem é treinada, entre outras coisas, para ser útil e agradável. Ela devolve organização, empatia formatada, três sugestões práticas. Ela raramente devolve o silêncio incômodo. Nunca devolve aquela pergunta curta que reabre tudo — "e por que você me contou isso agora?".

Na clínica, boa parte do trabalho acontece justamente no atrito. O analisando fala, e alguma coisa na fala não fecha: uma pausa, um lapso, um adjetivo estranho num lugar onde não cabia. O analista não corrige. Ele marca. Devolve a palavra torta como quem devolve uma peça que não encaixou, e é nesse desencaixe que o sujeito se escuta.

A IA, por desenho, alisa. Ela pega o texto torto e devolve reto. É excelente para quem precisa organizar um pensamento confuso antes de uma conversa difícil — e é exatamente o oposto do que produz efeito analítico. Uma escuta que nunca resiste não produz sujeito nenhum; produz eco.

O outro que não tem inconsciente

Há uma segunda diferença, mais difícil de nomear.

O analista não é um dispositivo neutro. Ele adormece por um segundo numa sessão, se irrita com um paciente, se comove com outro, sonha com o consultório. Tudo isso é matéria de trabalho — a contratransferência, na gíria da casa. É por ter um inconsciente que o analista consegue ser afetado pelo que o outro diz sem saber que está dizendo.

Uma linguagem estatística não é afetada. Ela simula ser. E a simulação é boa o bastante para consolar às três da manhã, o que não é pouco. Mas consolo não é elaboração. O consolo devolve a pessoa ao sono. A elaboração devolve a pessoa a uma pergunta que ela vinha evitando há anos.

O Conselho Federal de Psicologia, que publicou em dezembro de 2025 uma cartilha específica sobre chatbots e saúde mental, insiste num ponto parecido por outro caminho: essas ferramentas não substituem o acompanhamento profissional, não têm responsabilidade técnica sobre o que dizem e não respondem a ninguém quando erram. Um analista responde — a um código de ética, a uma supervisão, a uma instituição, e antes de tudo ao paciente que está na sala.

E o dinheiro, que é a parte que ninguém quer discutir

Seria desonesto escrever tudo isso e ignorar o motivo mais banal do número: o custo.

O relatório aponta o preço do tratamento como barreira principal para quem não procura ajuda. Uma ferramenta gratuita, disponível a qualquer hora, sem lista de espera, sem deslocamento, resolve um problema real de acesso que o país não resolveu. Quem tem oitocentos reais por mês para análise semanal não está no mesmo dilema de quem tem zero.

Dizer "procure um profissional" para alguém que já sabe disso e não tem como pagar é conselho de quem nunca ficou sem. Existem caminhos que custam menos e quase nunca aparecem na conversa: as clínicas-escola das faculdades de psicologia, que atendem a valores sociais; os serviços de atenção psicossocial da rede pública; os grupos e as clínicas sociais mantidas por institutos de psicanálise, que praticam contribuição proporcional à renda. São portas estreitas, com fila, e ainda assim são portas.

Onde a máquina ajuda de verdade

Não tenho nenhum interesse em condenar quem usa. Tenho interesse em separar as coisas.

Escrever para uma IA às três da manhã pode funcionar como o caderno funcionava: um lugar onde a coisa sai da cabeça e vira texto. Isso já tem valor. Pode servir para ensaiar uma conversa, para entender uma palavra técnica que o médico usou, para organizar uma linha do tempo antes da primeira sessão com alguém.

O que ela não faz é sustentar uma transferência ao longo do tempo, suportar o ódio que aparece no meio do tratamento, aguentar ser decepcionante do jeito certo. Um analista precisa ser suficientemente decepcionante — precisa não dar o conselho que se espera dele — para que o sujeito descubra que estava esperando alguma coisa que ninguém pode dar.

Nenhuma ferramenta treinada para satisfazer vai decepcionar assim. É contra a natureza dela.

O sintoma que o número mostra

Se 70% de nós já conversamos com uma máquina sobre a própria vida, o dado não fala primeiro sobre tecnologia. Fala sobre uma escassez de escuta que já existia antes, e que a máquina apenas tornou visível ao preencher.

As pessoas não migraram para a IA porque a IA é melhor. Migraram porque tinham algo a dizer e um número insuficiente de lugares onde dizer. Isso é sobre a nossa vida em comum — sobre casamentos onde não se conversa, amizades que viraram troca de vídeo, trabalho que não admite fragilidade, famílias em que certos assuntos foram combinados como inexistentes.

A pergunta interessante não é se a máquina serve. É por que ficou tão raro encontrar um humano disposto a ouvir sem apressar a conclusão.

Leia também

Baixe grátis: 4 atividades do kit (rotina visual + comunicação para imprimir)

Deixe seu melhor e-mail e a amostra abre na hora. Sem spam — cancele quando quiser.

Vale a leitura