Existe uma cena que se repete em consultórios de psicanálise em todo o país, quase sempre trazida de lado, no fim da sessão, como se fosse assunto menor. Alguém conta que passou o domingo levando o pai ao pronto-socorro. Ou que aprendeu a aplicar insulina na mãe. Ou que instalou uma câmera na sala para vigiar a casa dos pais durante o expediente.
Quase nunca essa pessoa chega dizendo que quer falar sobre isso. Chega dizendo que anda irritada, que não dorme direito, que brigou com o irmão por bobagem. O cuidado aparece como pano de fundo. E o pano de fundo, na clínica, costuma ser o assunto principal.
Um país que envelheceu mais rápido do que se organizou
Os números do IBGE explicam por que essa cena ficou tão comum. O Censo de 2022 encontrou 22,1 milhões de pessoas com 65 anos ou mais, 10,9% da população, um crescimento de 57,4% em relação a 2010. Considerando quem tem 60 anos ou mais, são 32,1 milhões de brasileiros, 15,6% do total. A expectativa de vida chegou a 76,6 anos em 2024, e as projeções apontam que, por volta de 2070, um terço do país será idoso.
O mercado formal de cuidado cresceu junto, mas partindo de quase nada. Entre 2012 e 2022, o número de cuidadores registrados saltou de 5.263 para 34.054 profissionais, alta de 547%. O salário médio da categoria fica em torno de R$ 1.812,95.
E o preço de contratar assusta qualquer orçamento familiar. Uma diária de 12 horas custa de R$ 150 a R$ 280. O plantão de 24 horas vai de R$ 280 a mais de R$ 400. No mês, um esquema de cuidado contínuo pode custar de R$ 3 mil a R$ 9 mil.
Há um dado que talvez seja o mais revelador de todos: ainda não existe um número oficial único que mostre todo o universo de cuidadores no Brasil, justamente porque boa parte funciona de forma informal. O trabalho existe, sustenta milhões de vidas e não aparece na estatística.
Quem sustenta o que não é contado
Quando não há dinheiro para contratar, e na maioria das casas brasileiras não há, o cuidado recai sobre a família. E dentro da família, recai principalmente sobre filhas, esposas e netas.
A lei brasileira reconheceu isso. A Política Nacional de Cuidados, instituída pela Lei 15.069, de dezembro de 2024, afirma que todas as pessoas têm direito ao cuidado, e define esse direito como "o direito a ser cuidado, a cuidar e ao autocuidado". Entre seus objetivos está promover o reconhecimento, a redução e a redistribuição do trabalho não remunerado do cuidado, realizado primordialmente pelas mulheres.
É um texto que descreve com precisão jurídica algo que a psicanálise escuta em outra chave: a distribuição desigual de um encargo que nunca foi negociado em voz alta.
A inversão que ninguém combinou
O que a clínica encontra, quando esse tema finalmente ocupa o centro da sessão, raramente é uma queixa simples de cansaço. É uma torção na posição de cada um.
O filho que passa a dar banho no pai está fazendo mais do que uma tarefa doméstica. Está ocupando, de repente, o lugar de quem sustenta, decide e protege, o lugar que aquele pai ocupava na cena original da infância. A psicanálise chama a atenção para o quanto essa inversão mexe com camadas antigas: o pai que impunha limite agora depende de autorização para tomar banho. A mãe que dizia o que era certo agora pergunta que dia é hoje.
Não é raro que apareça, junto com a dedicação, uma raiva que a pessoa considera imperdoável. Ela cuida com esmero e, à noite, se pega desejando que aquilo acabe. No dia seguinte, se pune pelo pensamento.
A psicanálise não trata isso como defeito de caráter. Trata como ambivalência, a coexistência de amor e hostilidade dirigidos à mesma pessoa, algo que Freud descreveu como estrutural nos laços mais próximos. O problema não é sentir. O problema é não poder dizer, nem para si mesmo.
A culpa como moeda de troca
Outro personagem frequente dessas sessões é a culpa, e ela costuma funcionar como uma espécie de contabilidade moral. Quem cuida sente que nunca é suficiente. Quem não cuida diretamente, o irmão que mora longe, paga em dinheiro e sente que comprou uma dispensa que não o alivia.
Essa contabilidade quase sempre reativa disputas antigas. Quem era o preferido. Quem foi cobrado demais. Quem saiu de casa cedo. A doença de um pai idoso costuma reabrir a divisão de papéis que a família estabeleceu décadas antes, e agora sem ninguém com energia para renegociar.
Há ainda o luto que começa antes da morte. Acompanhar a perda progressiva de autonomia, de memória, de reconhecimento, é uma despedida em câmera lenta. A clínica ouve isso muito antes de qualquer velório.
O que ajuda, sem transformar a dor em tarefa
A psicanálise não oferece um manual de cinco passos, e desconfia de quem oferece. O que ela sustenta é mais simples e mais difícil: um espaço onde essas frases possam ser ditas sem que o mundo desabe.
Dizer "eu não aguento mais" em voz alta, uma vez por semana, para alguém que não vai retribuir com julgamento nem com conselho apressado, muda o regime de funcionamento de quem cuida. Não porque resolva a logística, mas porque separa a pessoa do papel.
Algumas outras coisas costumam aparecer nesse trabalho: nomear o que está sendo feito em vez de tratá-lo como natural, dividir de forma explícita o que hoje é combinado por omissão, e reconhecer que autocuidado, na lei e na clínica, não é luxo nem egoísmo.
Quando o corpo de quem cuida começa a adoecer, e ele costuma avisar antes, a família descobre tarde o que a estatística já sabia: nenhuma casa se sustenta em um só par de mãos.