O Vigitel, inquérito telefônico do Ministério da Saúde, investigou o sono dos brasileiros pela primeira vez na edição de 2025. O resultado: 31,7% dos adultos moradores das capitais relatam ao menos um sintoma de insônia, e 20,2% dormem menos de seis horas por noite. Entre as mulheres, o índice de sintomas chega a 36,2%, contra 26,2% entre os homens. A prevalência é maior entre pessoas mais velhas e com menor escolaridade.
Um em cada três. É um número de epidemia silenciosa, e ele foi recebido do jeito que esses números costumam ser recebidos: com uma lista de recomendações de higiene do sono. Desligar a tela uma hora antes. Não tomar café à tarde. Manter horário. Escurecer o quarto.
Tudo isso é sensato e vale a pena. Mas quem tem insônia de verdade já sabe dessa lista de cor — e continua acordado. Porque a pergunta que a lista não faz é a mais importante: o que exatamente acontece na hora em que o sono deveria vir e não vem?
A hora em que ninguém interrompe
Durante o dia, a gente está ocupado. Não no sentido de estar produzindo, mas no sentido literal: há sempre alguma coisa ocupando o lugar. Trabalho, mensagem, feed, conversa, tarefa, barulho.
À noite, essas ocupações vão embora uma a uma. E o que sobra é justamente aquilo que passou o dia inteiro sem vez.
Freud descreveu o sonho como a realização de um desejo, e para chegar lá ele precisou explicar por que os pensamentos ficam mais insistentes quando as defesas relaxam. A noite não cria os conteúdos — ela apenas para de bloqueá-los. O que volta às três da manhã não é novo. É o que foi adiado às três da tarde.
Por isso a insônia tem um horário social tão preciso. Ela raramente aparece no momento em que a pessoa deita exausta depois de um dia impossível. Ela aparece quando o corpo para e a cabeça, enfim, tem espaço.
Dormir exige uma entrega
Há um detalhe do sono que a linguagem cotidiana registra melhor que qualquer manual: a gente cai no sono, pega no sono, se entrega ao sono. Nenhum desses verbos é ativo. Não existe "eu durmo" no sentido de uma ação que se executa por decisão.
Dormir exige soltar o controle. Exige aceitar que, por algumas horas, você não vai vigiar nada — nem a casa, nem o trabalho, nem os filhos, nem os próprios pensamentos. É um pequeno abandono de posto, repetido toda noite.
Para quem organizou a vida em torno de estar sempre alerta, esse abandono é exatamente o que não pode acontecer. E aqui a insônia deixa de ser falha e passa a ser coerência. Se estar em guarda foi, em algum momento, o que garantiu segurança, o corpo aprende que baixar a guarda é perigoso. Ele então faz o que aprendeu: não baixa.
Escuto muito, no consultório, algo desse tipo dito de outra forma: "eu sei que estou cansado, mas se eu dormir agora, o dia acaba". Como se o sono fosse não o descanso do dia, mas a confirmação de que o dia passou sem que nada do que importava tenha sido vivido.
A insônia da produtividade
Existe uma variação contemporânea dessa história que merece nome próprio.
Não é a insônia de quem está preocupado com alguma coisa. É a insônia de quem não quer que o dia termine — porque o dia inteiro foi de obrigação, e a madrugada é o único pedaço que sobrou para ser dele.
Chamam isso de procrastinação de vingança do sono, e o nome popular é preciso. A pessoa não está sem sono. Ela está cobrando um tempo que não teve. Rola o feed até três da manhã não porque o conteúdo prenda, mas porque desligar significaria admitir que o dia foi todo dos outros.
É um cálculo que faz sentido do ponto de vista do desejo e é ruinoso do ponto de vista do corpo. E ele revela algo que a lista de higiene do sono não alcança: o problema não estava na hora de deitar. Estava distribuído nas dezesseis horas anteriores.
O que a fala faz com a noite
Não sustento aqui que conversar resolva insônia. Seria promessa fácil e falsa.
O que observo é mais modesto e mais concreto: o que encontra endereço durante o dia costuma insistir menos à noite. O pensamento que gira em looping às duas da manhã é, com frequência, um pensamento que não teve com quem ser dito. Ele não está buscando solução — está buscando ouvido.
Quando esse material ganha espaço num lugar onde pode ser falado, elaborado, contradito, ele para de precisar da madrugada. Não porque tenha sido resolvido, mas porque deixou de ser exclusivo daquele horário.
É por isso que a insônia aparece tanto no início de uma análise e tanto menos alguns meses depois — sem que ninguém tenha falado sobre sono uma única vez.
Um limite importante
Preciso ser claro sobre uma fronteira.
Insônia persistente também pode ter causas que não são da ordem do psíquico: apneia do sono, distúrbios da tireoide, dor crônica, efeitos de medicações em uso, entre outras. Nada do que escrevi aqui substitui avaliação médica, e nenhuma leitura psicanalítica autoriza dispensar essa investigação.
Se o sono ruim já dura semanas, se há ronco alto com pausas na respiração, sonolência incapacitante durante o dia ou piora rápida, o primeiro caminho é procurar um médico. A escuta pode caminhar junto — e frequentemente caminha —, mas ela não ocupa o lugar do diagnóstico clínico, que não me cabe fazer.
O que o número diz sobre nós
Trinta e um por cento é muita gente para se explicar por características individuais.
Quando um terço dos adultos de um país não consegue dormir direito, o problema deixou de ser de cada um e passou a ser da forma como se vive — jornada, deslocamento, insegurança, tela, silêncio que nunca chega. O corpo está respondendo a alguma coisa, e ele responde do jeito que sabe: recusando-se a desligar num mundo que não desliga.
Talvez a pergunta mais honesta diante desse dado não seja "como durmo melhor?", e sim: o que anda ficando sem lugar durante o meu dia, a ponto de precisar da minha madrugada?