PsicoCast
Saúde & Bem-estarAgende uma sessão

Por que a política mexe tanto com a gente: o que Freud viu na multidão

Por que a política mexe tanto com a gente: o que Freud viu na multidão

A propaganda eleitoral nas ruas e na internet foi liberada neste domingo, 16 de agosto, conforme o calendário eleitoral definido pelo Tribunal Superior Eleitoral para as eleições gerais. Começa aí um período de quase dois meses em que o país inteiro vai conversar, quase sem intervalo, sobre a mesma coisa.

E conversar de um jeito específico. Qualquer pessoa que já tenha visto uma mesa de família azedar em quinze segundos sabe que política não é um assunto como os outros. Não se discute time de futebol com a mesma temperatura com que se discute voto. Alguma coisa acontece ali que não acontece em outros temas, e essa alguma coisa foi objeto de um dos textos mais estranhos e mais duradouros da psicanálise.

Um livro de 1921 que não envelheceu

Em 1921, Freud publicou "Psicologia das massas e análise do eu". O texto completou cem anos há pouco tempo e continua sendo revisitado justamente porque tocou num ponto que os acontecimentos insistem em reencenar.

A pergunta de Freud era simples de enunciar e difícil de responder: por que uma pessoa razoável, sozinha, passa a pensar, sentir e agir de maneira tão diferente quando está dentro de um grupo? As explicações disponíveis na época falavam em sugestão e hipnose, como se a multidão exercesse um poder mágico sobre o indivíduo. Freud achou isso insuficiente. Dizer que a massa hipnotiza é apenas dar outro nome ao problema, não explicá-lo.

Sua resposta foi deslocar a questão para o terreno do afeto. O que mantém um grupo unido, disse ele, é um investimento emocional recíproco: entre os membros, de um lado, e entre cada membro e a figura que ocupa o lugar de liderança, de outro. É um laço de amor, no sentido amplo que a psicanálise dá à palavra. E é isso, não a sugestão, que faz a diferença.

Identificação: horizontal e vertical

O conceito central aqui é o de identificação, que Freud descreveu como a mais remota expressão de laço emocional com um objeto. Ela opera em duas direções ao mesmo tempo.

Na horizontal, cada integrante do grupo se identifica com os demais. É o "nós" que se forma quando pessoas que não se conhecem passam a se reconhecer como iguais por partilharem alguma coisa. Na vertical, o líder é alocado no lugar do ideal, aquilo que a psicanálise chama de ideal do eu. Em vez de sustentar sozinho a imagem perfeita de si mesmo, o sujeito a delega, e recupera por essa via um pedaço do narcisismo que perdeu quando saiu da infância e descobriu que não era o centro do mundo.

A consequência é potente. Quando muitas pessoas colocam a mesma figura nesse lugar, elas se tornam iguais entre si naquele ponto preciso. O grupo se forma menos por um programa em comum do que por um ideal em comum. E é por isso que a adesão política raramente se desfaz com argumentos: o argumento fala com a razão, mas o laço se sustenta em outro lugar.

A parte incômoda: o que sobra para o diferente

Se a coesão vem da identificação, ela cobra um preço. A leitura psicanalítica da vida pública brasileira, retomada por diversos pesquisadores nos últimos anos, insiste num ponto desconfortável: a intensidade do laço interno costuma ser proporcional à rejeição do que está fora dele.

Pesquisadores que aplicaram o texto de Freud ao Brasil recente descrevem justamente isso. Narrativas de antagonismo criam fissuras na coletividade e instituem uma divisão sustentada não em projetos, mas em ódio, fragmentando identidades coletivas que antes conviviam. Outros apontam a negação da alteridade como operação central: o diferente deixa de ser alguém com quem se discorda e passa a ser alguém cuja existência é insuportável.

Há ainda um elemento que Freud não podia prever e que a pesquisa contemporânea acrescentou. Os aparatos digitais constituem hoje um modo novo de mobilização, combinando estratégias discursivas antigas com algoritmos que amplificam identificações. A dinâmica é a mesma que a de 1921. A escala e a velocidade não são.

O que isso não significa

Vale ser preciso, porque esse tipo de leitura é fácil de deturpar.

Dizer que a adesão política tem um componente afetivo não significa dizer que quem se engaja está iludido, doente ou manipulado. Não é diagnóstico, e a psicanálise não tem autoridade nenhuma para distribuir rótulos desse tipo. A pulsão de agrupamento é constitutiva da vida social. Sem identificação não há laço, não há cultura, não há projeto coletivo de espécie alguma. Freud não estava condenando a massa, estava descrevendo como ela funciona.

Também não significa que todas as posições se equivalham, ou que o conteúdo do que se defende seja irrelevante. A psicanálise não tem nada a dizer sobre qual proposta de governo é melhor. O que ela oferece é outra coisa: uma explicação para a temperatura, não para o mérito.

E não significa, por fim, que exista uma posição neutra e superior, de quem estaria acima das paixões. Essa também é uma ilusão, e das mais confortáveis.

O que dá para fazer com isso

A utilidade prática de entender esse mecanismo é pequena e específica, mas não é nula.

A primeira coisa é reconhecer a diferença entre discordar de uma ideia e sentir que a própria identidade foi atacada. São experiências distintas, e a segunda costuma se disfarçar de primeira. Quando uma conversa política deixa de ser sobre o que se discute e passa a ser sobre quem se é, a discussão já acabou, mesmo que continue por mais duas horas.

A segunda é notar quando o desconforto vem do conteúdo e quando vem da quebra do laço. Muita gente sofre menos com a proposta do outro do que com a descoberta de que uma pessoa querida está do outro lado. É um sofrimento real, e não é sobre política.

A terceira, talvez a mais difícil, é aceitar que ninguém está fora disso. A massa não é sempre o outro. Nesses dois meses, ela também vai passar por dentro de cada um de nós, e a única vantagem possível é conseguir notar quando isso acontece.

Não é pouco. Nem sempre é possível. Mas é mais honesto do que a alternativa, que é achar que só o vizinho está tomado pela paixão enquanto nós, é claro, estamos apenas raciocinando.

Leia também

Baixe grátis: 4 atividades do kit (rotina visual + comunicação para imprimir)

Deixe seu melhor e-mail e a amostra abre na hora. Sem spam — cancele quando quiser.