Existe uma cena que se repete com uma frequência nova. A pessoa senta, respira, e antes de contar qualquer coisa da vida dela, entrega a palavra: "eu sou ansioso", "eu tenho déficit de atenção", "acho que sou uma pessoa evitativa". O nome vem primeiro. A história vem depois, quando vem.
Não há nada de errado em procurar uma palavra para o que dói. Nomear é uma das coisas mais humanas que existem. O que mudou foi a velocidade, e a origem: hoje o nome costuma chegar de fora, pronto, em quinze segundos de vídeo, antes que a pessoa tenha tido tempo de descobrir o que exatamente está sentindo.
O que os números mostram sobre esse atalho
Um estudo publicado em março de 2025 na revista científica PLOS One ajuda a medir o tamanho do fenômeno. Pesquisadores liderados por Vasileia Karasavva, da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, pegaram os cem vídeos mais populares com a hashtag do transtorno de déficit de atenção e hiperatividade e pediram que dois psicólogos clínicos avaliassem, uma a uma, as afirmações feitas ali.
Os vídeos somavam quase meio bilhão de visualizações. Pouco menos da metade das afirmações sobre sintomas correspondia ao que os manuais diagnósticos descrevem. Em números da própria pesquisa, 51,3% das alegações foram consideradas imprecisas.
Dois achados desse estudo interessam ainda mais a quem escuta. O primeiro: quem consumia muito desse conteúdo tendia a superestimar em até dez vezes a frequência do transtorno na população. O segundo, mais desconcertante: essas mesmas pessoas recomendavam com igual entusiasmo os vídeos mais precisos e os menos precisos. Ou seja, o consumo intenso não treinou o olho para separar o que é bom do que não é.
Guarde esse detalhe, porque ele diz algo que a psicanálise conhece bem: quando algo nos toca, a verificação sai de cena. Não julgamos o conteúdo pelo rigor dele. Julgamos pela sensação de reconhecimento que ele produz.
Por que a palavra alivia tanto
Freud descreveu, já no começo do século passado, uma diferença que continua útil. O medo tem objeto: eu temo aquilo. A angústia, não. Ela é um estado sem endereço, uma inquietação que não sabe de onde vem nem para onde vai. E é justamente essa falta de contorno que a torna insuportável.
Um rótulo faz com a angústia o que uma moldura faz com uma mancha: dá borda. De repente, o cansaço que não passava, a dificuldade de terminar as coisas, a sensação de estar sempre um pouco atrás, tudo isso ganha um contorno e um nome. E o nome traz junto uma explicação, uma comunidade de pessoas parecidas e, principalmente, um alívio da culpa. Não era falta de esforço. Era isso.
Esse alívio é real. Seria desonesto tratá-lo como ilusão. Muita gente que passou anos se achando preguiçosa ou fraca encontrou, num nome, a primeira permissão de parar de se acusar.
O nome que abre e o nome que fecha
O problema não é o nome. É o que se faz depois dele.
Há um nome que abre. Ele é uma hipótese, um ponto de partida: "talvez seja isso, vamos ver como isso aparece na minha vida". A partir dele a pessoa começa a contar coisas que ainda não tinha contado, a reparar em situações que não tinha ligado umas às outras.
E há um nome que fecha. Esse funciona como resposta final. Ele encerra a conversa em vez de começá-la. Tudo o que acontece passa a ser explicado pela mesma palavra, e a vida vira ilustração da categoria. Perguntar "por que justo agora?" ou "por que com essa pessoa?" deixa de fazer sentido, porque a resposta já está dada de antemão.
Na clínica, dá para perceber a diferença rápido. Quando o nome abre, a pessoa fala cada vez mais. Quando fecha, ela repete cada vez a mesma frase.
Identificação: eu me reconheço num traço
A psicanálise tem um conceito que descreve bem o que acontece diante de um vídeo que parece falar de nós: a identificação. Não nos identificamos com uma pessoa inteira. Nos identificamos com um traço dela, um detalhe, um jeito de fazer algo. E a partir desse traço construímos uma parte de quem achamos que somos.
As redes são uma vitrine industrial de traços. Cada vídeo oferece um pedacinho descolado de contexto: "você faz isso? então é aquilo". O traço é apresentado sem a história de quem o vive, sem a vida ao redor, sem o antes e o depois. E é exatamente essa ausência de contexto que o torna tão fácil de vestir.
O detalhe é que o traço não pertence a ninguém. Ele circula. Vestir um traço é diferente de reconhecer um sofrimento próprio, ainda que a sensação, no momento, seja idêntica.
O sintoma não é só um defeito a remover
Aqui está a diferença mais importante entre a lógica do rótulo e a lógica da psicanálise.
Na lógica do rótulo, o sintoma é um erro de fábrica: uma peça com defeito que atrapalha o funcionamento e precisa ser identificada e retirada. A pergunta central é "o que você tem?".
Na psicanálise, o sintoma é outra coisa. Ele é uma formação, algo que se construiu ao longo de uma vida e que cumpre uma função. Ele diz de um conflito, de um desejo que não encontrou passagem, de uma repetição que insiste. Ele incomoda e ao mesmo tempo sustenta alguma coisa. Por isso não se retira um sintoma como se retira um parafuso: ele costuma voltar por outra porta, com outra roupa, se aquilo que ele dizia não foi escutado.
A pergunta muda de forma. Não é "o que você tem", é "como isso aparece na sua vida, desde quando, diante de quem, e o que acontece com você quando acontece".
Uma delimitação necessária
Vale dizer com todas as letras: diagnosticar é ato de profissional habilitado, médico ou psicólogo, e nenhum texto, vídeo ou conversa substitui uma avaliação feita por quem tem essa formação e essa responsabilidade. A psicanálise não faz esse trabalho e não pretende fazer. Ela trabalha em outro registro, o da escuta e da fala.
Os dois registros não competem. Muita gente faz um acompanhamento clínico e um processo de análise ao mesmo tempo, e um não anula o outro. O que a psicanálise oferece é o espaço para que aquilo que o nome não cobre também possa ser dito. Se o sofrimento estiver intenso, o primeiro passo é procurar ajuda profissional, e vale começar por onde for possível: a rede pública, um serviço de saúde da sua cidade, ou uma conversa inicial com um psicanalista para entender o que faz sentido no seu caso.
O nome como ponto de partida
O que a clínica ensina, ano após ano, é que ninguém cabe inteiro numa categoria. Duas pessoas com a mesma palavra escrita no papel têm histórias que não se parecem em nada: uma teve um pai ausente, a outra um pai grande demais; uma adoeceu depois de uma perda, a outra depois de uma conquista.
O nome, quando serve, serve como porta. Você atravessa e continua andando. O trabalho todo está do outro lado, e ele é feito de uma coisa só: contar. Contar o que aconteceu, contar de novo de outro jeito, reparar no que se repete, escutar o que a própria fala revela sem querer.
É um caminho mais lento que quinze segundos de vídeo. Mas é o único em que a história continua sendo sua.