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O país resolveu se contar: o que a primeira Pesquisa Nacional de Saúde Mental pode — e o que ela não alcança

O país resolveu se contar: o que a primeira Pesquisa Nacional de Saúde Mental pode — e o que ela não alcança

Desde janeiro, entrevistadores treinados estão batendo em portas espalhadas por 23 unidades da federação com uma pergunta que quase ninguém faz a um estranho: como anda a sua cabeça?

É a Pesquisa Nacional de Saúde Mental — a PNSM-Brasil —, iniciativa do Ministério da Saúde conduzida em parceria com a Universidade Federal do Espírito Santo e executada em campo pelo Ipsos-Ipec. É a primeira vez que o país tenta traçar, com desenho amostral rigoroso, um retrato da vida psíquica da sua população adulta.

A notícia é boa, e é preciso dizer isso sem reservas antes de qualquer outra coisa. Mas ela também abre uma pergunta que interessa diretamente a quem trabalha com escuta: o que exatamente se captura quando se decide medir o sofrimento?

O desenho: o que a PNSM-Brasil está fazendo

A fase piloto começou em janeiro de 2026, em oito municípios, e acumulou 354 entrevistas completas até 26 de maio. No início de junho, a coleta já havia se espalhado por 427 setores censitários em 137 municípios, distribuídos por todas as regiões do país.

O plano é ambicioso e metodologicamente conservador — na melhor acepção do termo. A coleta é domiciliar, feita em mais de 500 municípios, e a amostra segue o desenho do IBGE, o que garante representatividade nacional da população de 18 anos ou mais. A meta é chegar a cerca de 10 mil entrevistas válidas. O relatório final está previsto para o fim de 2026.

O que se pretende estimar: a prevalência de transtornos mentais na população — depressão, ansiedade, uso de álcool e outras drogas — e comportamentos relacionados ao suicídio.

Até aqui, o Brasil discutia sua própria saúde mental com dados emprestados. Usávamos recortes de estudos regionais, séries de atendimento do SUS (que só enxergam quem chega), inquéritos internacionais com amostras brasileiras pequenas. Ter número próprio, coletado em casa, com metodologia pública, muda o terreno da conversa.

Por que a clínica deveria querer esse mapa

Existe uma tentação corporativa, entre analistas, de torcer o nariz para a epidemiologia. É um erro, e um erro caro.

Política pública não se faz com singularidade. Se faz com prevalência, com distribuição geográfica, com séries históricas. A decisão de abrir um CAPS numa cidade do interior, de financiar formação de trabalhadores, de escalar leitos ou de sustentar um programa de prevenção não pode depender da impressão acumulada de quem atende. Depende de saber quantos, onde e desde quando.

A psicanálise se beneficia disso de forma bastante concreta: ela existe dentro de um tecido de cuidado que precisa ser financiado. Um mapa que mostre a extensão real do sofrimento no país é, entre outras coisas, um argumento orçamentário. E é um argumento contra a naturalização — contra a ideia, tão confortável, de que estar mal é apenas uma característica pessoal, um traço de temperamento, uma falha de disciplina.

Quando 10 mil casas dizem a mesma coisa, fica mais difícil sustentar que o problema é individual.

A distância entre contar e escutar

Dito isso: há algo que um questionário, por melhor desenhado que seja, não alcança.

Um instrumento de rastreio pergunta se a pessoa se sentiu para baixo nas últimas duas semanas, com que frequência, com que intensidade. A resposta vira um escore, o escore vira um caso provável, os casos prováveis viram uma taxa. É um procedimento legítimo e é assim que se produz conhecimento populacional.

Mas o que a pessoa faz com esse estar para baixo — a que ele responde, o que ele repete, de onde ele vem, o que ele protege — não cabe na escala. E não cabe não por defeito do instrumento. Cabe fora dele por definição.

A estatística trabalha com o que se repete entre as pessoas. A clínica trabalha com o que se repete dentro de uma pessoa. São duas repetições diferentes, e nenhuma das duas substitui a outra.

Um exemplo banal e frequente: duas pessoas relatam insônia há seis meses, mesma frequência, mesmo prejuízo funcional. No banco de dados, são duas linhas praticamente idênticas. Na sala, uma delas descobre que só consegue dormir depois que o filho adolescente chega em casa, e que a insônia começou quando ela parou de conseguir dizer isso ao filho. A outra descobre que dormir era, na infância, o único momento em que ninguém a exigia — e que voltou a não conseguir se entregar ao sono quando foi promovida. As duas linhas iguais no banco eram duas histórias que não se parecem em nada.

A pesquisa vai capturar as duas como insônia. E está certa em fazê-lo. Só não é isso que vai fazer qualquer uma das duas dormir.

O risco da coisa: quando o nome vira destino

Há um efeito colateral previsível quando um país passa a se ver em números de saúde mental, e vale antecipá-lo.

Categoria diagnóstica é uma ferramenta administrativa e comunicacional excelente. Ela organiza atendimento, orienta pesquisa, dá nome ao que estava mudo. O problema aparece quando o nome deixa de ser uma ferramenta e vira uma identidade — quando alguém para de dizer estou sofrendo com isso e passa a dizer eu sou isso.

O diagnóstico, nesse ponto, funciona como um ponto final onde deveria haver uma vírgula. Ele encerra a pergunta em vez de abri-la. E há uma economia inteira de conteúdo, hoje, que vive de vender esse ponto final: o vídeo que lista cinco sinais, o teste que devolve um rótulo em trinta segundos, a explicação total que dispensa a pessoa de investigar a própria vida.

A PNSM-Brasil não tem culpa disso, e é injusto responsabilizá-la. Mas os dados dela vão circular num ambiente que já é assim. Vão virar manchete, infográfico, legenda. E é bastante provável que o número que descreve uma população acabe sendo lido por muita gente como uma descrição de si.

Vale antecipar isso com alguma honestidade: prevalência não é prognóstico. Saber que uma parcela da população adulta convive com ansiedade não diz nada sobre o que a sua ansiedade está tentando dizer.

O que fazer com o retrato quando ele ficar pronto

O relatório final chega no fim do ano. Vale desde já sugerir três usos que não se anulam.

O primeiro é orçamentário e político: cobrar que os números virem serviço, não apenas apresentação. Um retrato do sofrimento que não se converte em leito, em equipe e em formação é uma peça de comunicação, não uma política.

O segundo é epistemológico: resistir à leitura de que, medido o fenômeno, ele está compreendido. Medir é o começo do trabalho. A pergunta sobre por que uma sociedade adoece de determinada maneira, num determinado momento histórico, não é respondida por prevalência — é respondida por interpretação, e interpretação é um trabalho lento, disputado e sem escore.

O terceiro é clínico e é o mais simples de todos: manter aberta a porta do caso a caso. O mapa é útil justamente porque não é o território. Nenhum brasileiro vive a média nacional. Cada um vive a própria vida, com a própria história, com os próprios impasses — e é ali, e só ali, que uma análise trabalha.

É bom que o país esteja se contando. Contar é um gesto de reconhecimento: significa admitir que aquilo existe e merece ser sabido. Mas contar não é escutar, e a diferença entre as duas coisas não é uma questão de rigor.

É uma questão de tempo. A estatística pede uma resposta. A escuta pede que alguém fique.

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