Em junho, durante o Congresso da Associação Brasileira de Saúde Mental (Abrasme), pesquisadoras da Fiocruz apresentaram trabalhos que colocam a diversidade na saúde mental como eixo central do cuidado. Em Rodas de Conversa, Taiane Lopes e Joyce Avelar, do Núcleo de Saúde Mental, Álcool e Outras Drogas (Nusmad) da Fiocruz Brasília, trouxeram pesquisas que dialogam com a ideia de que o sofrimento psíquico é sempre atravessado por questões de gênero, raça, sexualidade e classe. Essa discussão ecoa debates mais amplos, como os que ocorreram na Fiocruz no 10º Congresso Brasileiro de Saúde Mental: Luta Antimanicomial e Psicanálise, reforçando a importância de um olhar crítico sobre o cuidado.
A proposta de um cuidado em liberdade, que respeite a singularidade de cada pessoa, encontra na escuta clínica uma ferramenta potente para acolher essas diferenças sem reduzi-las a diagnósticos ou rótulos. Vamos explorar como esses estudos se conectam com os desafios e possibilidades de uma saúde mental verdadeiramente plural.
Pesquisas da Fiocruz: Cuidado em Liberdade e a Escuta Clínica
O trabalho apresentado por Taiane Lopes, intitulado "Diários de Sampa e Diários de Salvador", faz parte do projeto "Morar em Liberdade", que reúne ciência e arte para resgatar narrativas de cuidado humanizado em saúde mental. A pesquisa foca em mulheres usuárias da Rede de Atenção Psicossocial (Raps) e busca dar voz a experiências que muitas vezes são silenciadas pelo sistema.
Aqui, a escuta clínica se torna fundamental. As narrativas dessas mulheres não são apenas relatos de sintomas; são manifestações de um sujeito que deseja, que sofre e que resiste. O cuidado em liberdade defende exatamente isso: um acolhimento que não aprisiona o sujeito em uma identidade fixa, mas que permite que ele se construa a partir de sua própria história. Se você quer entender melhor o que está por trás dessa escuta, vale a pena ler para que serve a terapia psicanalítica? Guia completo sobre benefícios e funcionamento, que explora como esse processo acontece na prática.
Joyce Avelar, por sua vez, apresentou o "Panorama nacional de iniciativas sobre gênero, sexualidade e raça/cor/etnia em Centros de Atenção Psicossocial". Trata-se de um levantamento exploratório e qualitativo de experiências em CAPS das cinco regiões do Brasil. Esse mapeamento mostra que, na prática, muitos serviços ainda têm dificuldade em lidar com a diversidade. Mas também revela iniciativas que já incorporam uma escuta mais sensível às diferenças.
Gênero e Raça na Saúde Mental: Contribuições da Pesquisa
As pesquisas da Fiocruz evidenciam que gênero e raça na saúde mental não podem ser tratados como "temas transversais" ou meras pautas identitárias. A constituição do sujeito passa pelo reconhecimento do outro e pela inscrição na linguagem, que já é marcada por relações de poder e diferença.
Uma mulher negra em um CAPS não está apenas lidando com um diagnóstico; está lidando com uma história de silenciamento, racismo e desigualdade que atravessa seu corpo e sua fala. A pesquisa oferece um espaço onde essa história pode ser dita e elaborada, sem ser reduzida a um transtorno.
O estudo de Taiane Lopes, ao resgatar as narrativas de mulheres em situação de vulnerabilidade, mostra como o cuidado em liberdade passa por reconhecer essas marcas sociais no psiquismo. Não se trata de "empoderar" ou "dar voz", mas de escutar o que já está sendo dito — muitas vezes nas entrelinhas, nos sintomas, nos silêncios.
Sexualidade e Cuidado: O Papel da Escuta nos CAPS
A sexualidade é um campo fértil para o sofrimento psíquico, especialmente quando normas sociais e preconceitos entram em cena. O trabalho de Joyce Avelar, ao mapear iniciativas sobre gênero, sexualidade e raça nos CAPS, aponta para a necessidade de uma escuta que acolha a diversidade sexual sem patologizá-la.
O que causa sofrimento não é a orientação sexual em si, mas o conflito entre o desejo e as proibições sociais internalizadas. Quando um CAPS se propõe a acolher um jovem LGBTQIA+, é fundamental que o profissional saiba escutar esse conflito sem julgamento.
Os CAPS são espaços privilegiados para essa escuta, pois estão inseridos na comunidade e lidam com o sujeito em sua totalidade. A pesquisa oferece ferramentas para que o sujeito possa se reposicionar diante de seu desejo e de seu sofrimento.
Desafios e Perspectivas para a Escuta Clínica na Diversidade
Apesar dos avanços, ainda há muitos obstáculos. O levantamento de Joyce Avelar mostra que muitas iniciativas ainda são isoladas e dependem do engajamento individual de trabalhadores, e não de uma política institucionalizada.
Outro desafio é o risco de reduzir a diversidade a uma "pauta" ou a um "protocolo". É preciso lembrar que o sujeito é sempre singular, e que nenhuma categoria identitária dá conta de sua complexidade. Uma escuta clínica da diversidade precisa estar aberta ao inesperado, ao que foge ao enquadre. Esse cuidado com o ambiente de trabalho também ecoa em outras áreas, como aponta o texto sobre Saúde Mental no Trabalho: Uma Análise Psicanalítica da NR-1 e da Gestão de Riscos Psicossociais, onde a subjetividade do trabalhador é muitas vezes ignorada.
As pesquisas da Fiocruz apontam caminhos: é preciso investir em formação continuada, criar espaços de supervisão clínica e, acima de tudo, garantir que o cuidado em liberdade seja um princípio, e não apenas um slogan. Isso significa respeitar o tempo de cada sujeito, acolher suas contradições e não tentar "encaixá-lo" em um modelo pré-definido de saúde mental.
Conclusão: Rumo a uma Saúde Mental Plural e Inclusiva
Os estudos apresentados no congresso da Abrasme mostram que a Fiocruz e a saúde mental não são campos opostos, mas aliados na construção de um cuidado mais humano e diverso. Ao resgatar narrativas de mulheres, mapear iniciativas em CAPS e colocar gênero, raça e sexualidade no centro do debate, essas pesquisas reafirmam a importância de uma escuta que valorize a singularidade de cada sujeito.
A pesquisa tem muito a contribuir para que a diversidade na saúde mental deixe de ser um ideal e se torne uma prática cotidiana. O caminho é longo, mas passos importantes já estão sendo dados — e a Fiocruz, com seus estudos e pesquisadoras, está na linha de frente.
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Perguntas frequentes
O que é diversidade na saúde mental? É o reconhecimento de que o sofrimento psíquico é sempre atravessado por questões de gênero, raça, sexualidade, classe e cultura. A diversidade é acolhida como parte da singularidade de cada sujeito, e não como um desvio ou um problema a ser corrigido.
Como a Fiocruz contribui para a saúde mental com foco em diversidade? Através de pesquisas como as apresentadas no congresso da Abrasme, que mapeiam práticas em CAPS e resgatam narrativas de grupos historicamente marginalizados, como mulheres e pessoas LGBTQIA+. A Fiocruz também forma profissionais e desenvolve políticas públicas que integram ciência, arte e cuidado humanizado.
Qual a importância da escuta nos CAPS? A escuta que vai além do sintoma e do diagnóstico permite que o sujeito fale de seu sofrimento em sua própria língua. Nos CAPS, isso é essencial para acolher a diversidade sem patologizar diferenças, especialmente em relação a gênero, raça e sexualidade.
Como gênero e raça influenciam a saúde mental? As experiências de racismo, sexismo e LGBTQIA+fobia produzem marcas profundas no psiquismo, podendo gerar sofrimento, ansiedade, depressão e outras formas de adoecimento. A pesquisa ajuda a compreender como essas violências são internalizadas e como o sujeito pode elaborá-las.
O que é cuidado em liberdade na saúde mental? É um princípio que defende que o tratamento não deve restringir a autonomia do sujeito, mas sim promover sua circulação social e seu protagonismo. O cuidado em liberdade está alinhado com a reforma psiquiátrica e valoriza a palavra e o desejo do sujeito, em vez de isolá-lo ou medicá-lo de forma excessiva.
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