Em março deste ano, entrevistadores treinados começaram a bater em portas escolhidas por sorteio pelo Brasil inteiro com uma pergunta que o país nunca tinha feito de forma sistemática: como você está?
É a Pesquisa Nacional de Saúde Mental (PNSM-Brasil), do Ministério da Saúde — o primeiro estudo de larga escala dedicado exclusivamente a entender a saúde mental da população adulta brasileira. A coleta nacional começou em 23 de março de 2026, depois de uma fase piloto em oito municípios que serviu para testar os questionários e o jeito de abordar as casas.
O desenho é cuidadoso. Domicílios sorteados aleatoriamente. Em cada casa, uma pessoa de 18 anos ou mais responde. Entrevista presencial, feita em tablet, com perguntas sobre saúde, trabalho, renda, relações sociais, bem-estar emocional e uso de álcool e outras substâncias. Participação voluntária, sigilosa, analisada sem identificação individual. O próprio Ministério deixa claro no material de divulgação: a pesquisa não substitui atendimento e não serve como diagnóstico.
Aqui na redação do PsicoCast, a notícia provocou uma conversa que vale a pena colocar no papel. Porque ela toca num ponto que a psicanálise convive há mais de um século: a distância entre medir o sofrimento e escutá-lo.
O que um número resolve — e resolve mesmo
É tentador, para quem vem da clínica, torcer o nariz para o questionário. Seria um erro.
Política pública não se faz com intuição. Sem prevalência, não se calcula quantos serviços abrir. Sem saber onde o sofrimento se concentra, não se decide onde colocar equipe. Sem série histórica, não dá para saber se algo melhorou ou se apenas mudamos de assunto. O número é o que transforma dor privada em problema público — e problema público é o que consegue orçamento.
Há também um efeito menos óbvio e talvez mais importante: perguntar legitima. Quando o Estado bate na porta e pergunta como você está, ele diz, no gesto, que isso é assunto sério. Para muita gente que carrega um mal-estar há anos sem nome, ser perguntado já é um acontecimento.
Então não há nada de romântico em desprezar a estatística. Ela é necessária. A questão é outra: o que ela não alcança, e por que isso importa.
A diferença entre a queixa e o sintoma
Um questionário registra a queixa. A queixa é o que a pessoa sabe dizer sobre o que sente: não durmo bem, ando irritado, perdi a vontade.
A psicanálise trabalha com outra coisa. Freud percebeu cedo que aquilo que faz sofrer raramente coincide com aquilo que a pessoa apresenta como problema. Alguém chega dizendo que não consegue dormir e, meses depois, descobre que não dorme desde que aceitou um cargo que não queria. Outro chega falando de ansiedade e vai encontrar, no meio do caminho, uma dívida antiga com um irmão que nunca foi cobrada em voz alta.
O sintoma, no vocabulário psicanalítico, não é apenas um incômodo a ser removido. Ele é uma solução — precária, cara, mas uma solução — que o sujeito encontrou para lidar com algo que não conseguiu simbolizar de outro jeito. Ele diz alguma coisa. E o que ele diz não cabe numa alternativa de múltipla escolha, porque quem responde não sabe ainda o que está dizendo.
Isso não é um defeito do formulário. É a natureza do inconsciente: ele não se apresenta quando convocado. Ele aparece de viés, no lapso, no esquecimento, na repetição de uma escolha que a pessoa jura que não vai repetir.
O intervalo entre a resposta e a verdade
Há ainda um detalhe delicado. Numa entrevista de porta, com um desconhecido segurando um tablet, a pessoa responde o que consegue responder naquele momento — e o que consegue responder depende de com quem ela está falando.
Isso não invalida a pesquisa. Metodologia séria conta com isso e trabalha com margens. Mas ajuda a entender por que dois instrumentos diferentes encontram coisas diferentes. Um levantamento populacional produz um retrato do que a população consegue nomear sobre si. A escuta clínica produz outra coisa: um processo em que aquilo que não podia ser nomeado vai, aos poucos, encontrando palavra.
São tempos diferentes. O questionário acontece em quarenta minutos. A análise acontece em meses, às vezes anos, e o que aparece no terceiro ano frequentemente contradiz o que foi dito no primeiro. Não porque a pessoa mentiu — porque ela não sabia.
Por que os dois precisam existir ao mesmo tempo
O risco real não é a pesquisa. O risco é a leitura apressada que costuma vir depois dela.
Quando um número grande é publicado, a reação automática do debate público é buscar a causa única e a solução única. Aconteceu com quase todo indicador de saúde mental divulgado nos últimos anos: o dado sai, e em três dias já existe um culpado consensual e um protocolo salvador.
A psicanálise oferece justamente um freio a esse impulso. Ela lembra que a angústia de cada um tem uma história, e que histórias não se agregam. Duzentas pessoas podem marcar a mesma casinha no formulário por duzentos motivos que não se parecem em nada. O que elas têm em comum é a palavra que usaram — não a experiência.
Então a resposta madura não é escolher entre medir e escutar. É reconhecer que a estatística mostra onde o país está sangrando, e a escuta é o que trata a ferida uma a uma. Uma diz quantos CAPS abrir. A outra é o que acontece dentro deles, ou dentro de um consultório, quando alguém finalmente encontra um lugar para falar sem ter que resumir.
Se você foi sorteado — e se você não foi
Se um entrevistador identificado bater na sua porta nos próximos meses, vale responder. É voluntário, é sigiloso, e o dado que sai dali vira orçamento, equipe, serviço aberto num bairro onde hoje não tem nada.
E se você não for sorteado, mas alguma pergunta desse tipo ficou ecoando desde que começou a ler este texto, talvez o recado seja outro. A sensação de que existe algo em você que nenhum formulário daria conta de captar não é um sinal de que você está exagerando. É, quase sempre, o começo exato de uma análise: a percepção de que há mais coisa dita ali do que você conseguiu explicar.
Um questionário nacional pergunta como você está. A escuta psicanalítica pergunta outra coisa, muito mais desconfortável e muito mais fértil: e por que, afinal, você está assim?
Essa segunda pergunta não tem alternativa de resposta. Ela precisa de tempo, de alguém disposto a ouvir sem pressa e de uma disposição sua de não saber a resposta de antemão. É pouco, e é tudo.
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