Existe um momento, no consultório, que se repete com uma constância quase administrativa. A pessoa senta, respira e diz alguma variação disto: "eu tentei aguentar até não conseguir mais levantar da cama". Quase sempre há um atestado envolvido. Quase sempre o atestado chegou muito depois do primeiro aviso.
Os números de 2025 acabaram de dar contorno estatístico a essa cena. Segundo o Ministério da Previdência Social, o país concedeu 546.254 benefícios por incapacidade temporária motivados por transtornos mentais e comportamentais no ano passado — 15,66% a mais que em 2024, quando foram 472.328. Transtornos de ansiedade e episódios depressivos aparecem como as duas causas que mais geraram benefícios nessa categoria, nos dois anos.
Há um recorte que merece ser olhado devagar: 63,46% dos benefícios foram concedidos a mulheres — 346.613, contra 199.641 concedidos a homens. Por unidade da federação, São Paulo lidera com 149.375, seguido de Minas Gerais (83.321) e Rio Grande do Sul (46.738).
O que uma estatística consegue medir
Antes de qualquer leitura, vale reconhecer o que esse dado é: um registro de benefícios concedidos, não um censo de sofrimento. Ele conta quem adoeceu, procurou um médico, conseguiu o atestado, esperou mais de quinze dias, passou por perícia e teve o pedido deferido. Cada uma dessas etapas é um filtro. O número de 546 mil, portanto, não é o tamanho do problema — é o tamanho da parte do problema que conseguiu atravessar a burocracia inteira e sair do outro lado com um protocolo.
O que fica de fora é justamente o mais comum: quem trabalha adoecido, quem pede demissão antes de adoecer oficialmente, quem troca de emprego a cada dezoito meses sem entender por quê, quem chama de "fase" um estado que já dura três anos.
E, no entanto, o crescimento é real e sustentado. Não é uma oscilação de um ano. Alguma coisa mudou — ou na forma como se trabalha, ou na forma como se nomeia o que o trabalho faz.
Maio de 2026 mudou a régua
Desde 26 de maio de 2026, empresas com empregados regidos pela CLT passaram a ser fiscalizadas com base na nova redação da NR-1, que incorpora os chamados riscos psicossociais ao Programa de Gerenciamento de Riscos. Assédio, sobrecarga, metas inatingíveis, jornadas imprevisíveis e violência no ambiente de trabalho passam a ser tratados no mesmo registro formal em que já estavam ruído, poeira e risco ergonômico: identificar, avaliar, controlar, documentar.
É uma mudança relevante e, do ponto de vista da saúde pública, bem-vinda. Mas ela carrega uma tentação que vale nomear: a de imaginar que sofrimento psíquico se resolve por planilha. Um risco psicossocial mapeado é um risco que a organização assume existir — o que já é enorme. Não é, porém, a mesma coisa que um lugar onde alguém possa dizer o que está sentindo sem que isso vire item de auditoria.
O que a clínica escuta quando alguém adoece de trabalho
Na escuta psicanalítica, o adoecimento ligado ao trabalho raramente se apresenta como uma queixa sobre o trabalho. Ele chega por outra porta. Chega como insônia, como irritação com quem não tem nada a ver com o assunto, como um cansaço que o fim de semana não resolve, como aquela sensação difícil de descrever de estar cumprindo tarefas em um corpo que não é bem o seu.
Três coisas costumam aparecer.
A primeira é a repetição. Não é incomum que a pessoa reconheça, depois de um tempo de análise, que já viveu isso antes — em outro emprego, com outro chefe, com o mesmo desfecho. Trocar de empresa não interrompeu nada. Há algo que insiste, e que não está inteiramente do lado de fora.
A segunda é o ideal. Muita gente adoece tentando corresponder não ao que a empresa pede, mas ao que imagina que a empresa pede — uma exigência que muitas vezes é mais dura que a real, porque é feita da própria história. Quem cresceu ouvindo que só descansa quem já mereceu tende a nunca ter merecido o bastante.
A terceira é o gozo em jogo. Não é bonito de dizer, mas é honesto: há um prazer difícil na exaustão. Estar sempre ocupado protege de perguntas maiores. O excesso de trabalho às vezes funciona como anestesia — e anestesia, por definição, é algo que a gente escolhe repetir.
O sintoma não é falha de resiliência
Vale insistir nisto, porque a linguagem corporativa vem estragando a palavra: o sintoma não é fraqueza de caráter nem falta de treino emocional. Na psicanálise, o sintoma é uma formação de compromisso — uma solução que a pessoa encontrou, sem saber que encontrou, para um conflito que não pôde ser dito de outro jeito. Ele custa caro. Mas ele resolve alguma coisa, e é por isso que insiste.
Tratar sintoma como déficit de produtividade é, além de cruel, ineficaz: retira do sujeito a única coisa que poderia mudar o quadro, que é a chance de descobrir o que aquilo está tentando dizer.
Onde a psicanálise entra — e onde ela não entra
É importante ser preciso sobre o alcance. Um texto não diagnostica ninguém, e diagnóstico não é território da psicanálise. Se há sofrimento intenso, ideação suicida, insônia grave, alterações importantes de apetite ou qualquer sinal que preocupe, o caminho é procurar um médico ou um psicólogo — e, quando indicado, seguir o acompanhamento clínico que esses profissionais conduzirem. Isso não concorre com a análise; frequentemente caminha junto.
O que a psicanálise oferece é outra coisa, e é bem específica: um espaço em que a pessoa fala sem precisar ser útil, sem precisar concluir, sem precisar apresentar resultado. Um lugar onde a frase "eu não quero mais isso" pode aparecer sem ser imediatamente respondida com um plano de ação. Em uma cultura que transformou a vida inteira em desempenho — inclusive o descanso, inclusive o autoconhecimento —, esse é um espaço raro.
O que 546 mil pessoas estão dizendo
Números dessa magnitude costumam produzir dois reflexos ruins: o pânico ("o país está adoecendo") e o ceticismo ("banalizaram o atestado"). Nenhum dos dois escuta.
Talvez a leitura mais útil seja esta: durante muito tempo, o único idioma em que o sofrimento no trabalho conseguia ser reconhecido foi o idioma médico-previdenciário. Não se pede uma pausa porque a vida ficou insustentável — pede-se um afastamento porque há um código na Classificação Internacional de Doenças. O atestado virou a única língua que a estrutura aceita.
A NR-1 abre, em tese, uma segunda língua possível — a da gestão de risco. É um avanço. Mas a língua que falta continua sendo a mais simples: a de poder dizer, antes do laudo, que algo não está bem. Enquanto essa fala não tiver onde acontecer, ela vai continuar chegando pelo caminho mais caro — o corpo, a perícia, o número.