Em Guarapari, no Espírito Santo, há uma cabeleireira que começa o atendimento com uma pergunta em vez de uma tesoura. Maysa Neto abriu o M.flô neste mês de junho de 2026, e a primeira coisa que se nota no jeito dela de trabalhar não é técnica de cabelo nenhuma: é que, antes de propor qualquer coisa, ela quer saber quem está sentado na cadeira. Pode parecer detalhe. Para quem pensa cuidado a sério, é o detalhe que muda tudo.
Vale dizer por que uma página sobre psicanálise e cuidado de si resolve falar de uma cabeleireira. Porque o gesto que organiza o trabalho da Maysa — parar, perguntar, escutar antes de agir — é exatamente o gesto que a clínica leva a vida inteira tentando sustentar. E quando ele aparece fora do consultório, num lugar tão concreto quanto um salão de bairro, ele fica fácil de ver. A Maysa não é um exemplo no fim de um ensaio. É a protagonista de uma ideia muito simples e muito difícil de praticar.
A pergunta vem antes da técnica
O método dela tem um desenho, e o desenho começa pela escuta. Antes de hidratar, cortar ou tratar, a Maysa faz uma avaliação: entende o fio, o histórico daquela pessoa, o que ela já tentou, o que a frustrou, o que ela busca de fato. Só depois dessa conversa é que entra a parte técnica — o cronograma capilar, com hidratação, nutrição e reconstrução montado para aquele caso específico, e o acompanhamento, ajustado a cada visita, porque o que a cliente precisava no primeiro encontro não é necessariamente o que ela precisa no terceiro.
No M.flô isso tem nome: terapia capilar. O nome não é enfeite. A lógica é a de qualquer cuidado que se leva a sério — diagnosticar antes de agir, e continuar prestando atenção ao longo do caminho em vez de aplicar uma fórmula e ir embora. É a diferença entre tratar o cabelo como sintoma de uma média e tratá-lo como o de uma pessoa.
Ouvir e escutar não são a mesma coisa
Aqui a psicanálise ajuda a nomear o que a Maysa faz na prática. Ouvir é fisiológico: o som chega. Escutar é outra coisa — é dar atenção ao que o outro diz sem pressa de responder, sem corrigir, sem já saber a resposta. Quando Freud montou o dispositivo da análise, a invenção não foi um remédio nem uma técnica de persuasão; foi um lugar onde alguém falaria e outro alguém sustentaria a escuta. O paciente dizia o que viesse, e o analista, atrás, segurava um silêncio que não era vazio — era atenção.
Isso explica por que ser escutado alivia mesmo quando nada se resolve. Você já deve ter saído de uma conversa pensando "não mudou nada, mas eu me sinto melhor". Não mudou o problema; mudou que ele agora existe fora de você, depositado em alguém que o segurou por um instante. A escuta tira o peso de dentro e o coloca num espaço compartilhado, onde dá para olhar a coisa sem desabar junto com ela.
A pressa de agir é uma defesa
Há um ponto clínico importante embaixo disso. Quando alguém nos traz uma dor e a gente responde rápido demais — com um conselho, uma solução, um "faz assim" —, muitas vezes não é generosidade. É desconforto. A dor do outro mobiliza a nossa, e agir é a forma mais rápida de se livrar da angústia que ela desperta. O conselho apressado serve mais a quem dá do que a quem recebe. Por isso a escuta de verdade é difícil: ela exige tolerar não saber, ficar um pouco no escuro junto com a pessoa antes de acender qualquer luz.
Quem trabalha com gente vive essa tensão o dia inteiro, e num salão ela é particularmente forte. A tentação de pular direto para a parte técnica é enorme, porque é nela que se está confortável e competente. Escutar primeiro significa adiar a competência por alguns minutos. Significa deixar o outro existir como pessoa antes de virar serviço, agenda, próximo da fila. O que a Maysa fez foi transformar esse adiamento em método — não confiar que vai escutar de improviso, mas dar à escuta um lugar fixo no início do atendimento, com avaliação e conversa, todas as vezes.
Por que isso é cuidado, e não só simpatia
É tentador achar que atender bem é ser gentil. Não é a mesma coisa. Simpatia improvisada conforta e passa. O que a Maysa monta é estrutura: a escuta não depende do humor do dia nem da química com a cliente, porque está desenhada dentro do processo. Repare no que esse arranjo evita. Ele evita o improviso, que é a forma técnica de não escutar — chegar com a resposta pronta e encaixar a pessoa nela. Quando alguém sente que foi avaliado de verdade, que olharam para a situação específica dele e não para uma estatística, acontece algo que vai além do resultado no cabelo: a pessoa se sente, na palavra exata, considerada.
Existe uma diferença real entre ser ouvida antes de ser atendida e simplesmente receber um serviço, e quem já passou pelas duas coisas distingue uma da outra no corpo. Uma deixa a sensação de ter sido processado; a outra, de ter sido encontrado.
O que um salão tem a ver com saúde mental
Pode parecer um salto ir de uma cadeira de salão à psique, mas o que está em jogo nos dois casos é o mesmo: a experiência de ser reconhecido como alguém particular. Boa parte do sofrimento de hoje tem a ver com o oposto disso — a sensação de ser intercambiável, de atravessar serviços, instituições e relações sem que ninguém pare para ver quem você é. A pressa generalizada produz um tipo específico de solidão: a de estar cercado de gente que ouve sem escutar.
Encontrar alguém que escuta antes de agir, nesse contexto, é mais do que conveniente. A pessoa que se sente escutada baixa as defesas, organiza melhor o que sente, recupera um pouco da confiança de que o mundo pode receber o que ela tem a dizer. Não é terapia no sentido clínico, e seria desonesto chamar de cura — mas é da mesma família. É a experiência de que a sua singularidade cabe em algum lugar, nem que seja por uma hora numa cadeira.
Cuidar de si inclui deixar-se cuidar
Há um último fio para puxar, e ele fecha o sentido de tudo. Cuidar de si, na acepção que a filosofia e a psicanálise dão à expressão, não é só fazer coisas por conta própria. É também aprender a se deixar cuidar — escolher pessoas e espaços que tratem você com atenção em vez de pressa. Muita gente carrega tudo sozinha porque nunca encontrou um lugar onde fosse de fato escutada, e foi se convencendo de que pedir é fraqueza. Não é. Procurar quem ouve antes de agir — um analista, um amigo, ou alguém que cuida do seu corpo com método e escuta — é um ato de cuidado consigo.
O que fica da cadeira da Maysa, no fim, não é o cabelo. É o gesto de parar e perguntar antes de fazer. Esse gesto é raro, e é por ser raro que ele cuida de quem o recebe. Escutar não exige diploma: exige presença, paciência e a coragem de não saber por alguns minutos. Uma cabeleireira que decide começar por aí está fazendo, sem usar essas palavras, algo bem próximo do que a psicanálise chama de cuidado. E talvez seja por isso que valha a pena olhar para o trabalho dela — não como propaganda de salão, mas como uma pequena aula sobre o que significa, de fato, atender uma pessoa.