Na quarta-feira (29), a Anvisa aprovou de uma vez o registro de cinco novos medicamentos à base de semaglutida — as chamadas canetas emagrecedoras. É a maior quantidade de aprovações da classe concedida pela agência em uma única decisão. Com elas, o país chega a 21 medicamentos autorizados desse tipo.
No mesmo intervalo de dias, chegou outro número, menos comemorado. Em Minas Gerais, as apreensões de emagrecedores ilegais pela Polícia Federal passaram de 942 em todo o ano de 2025 para mais de 3.600 canetas, ampolas e frascos apenas entre janeiro e junho de 2026 — alta de quase 300%.
Os dois dados contam a mesma história por lados opostos. Existe uma demanda tão grande que o mercado regular corre para ampliar a oferta e o mercado clandestino cresce ainda mais rápido. A pergunta que interessa à psicanálise não é sobre a molécula. É sobre a pressa.
O que a medicina resolve e o que sobra
É preciso dizer isso com clareza, porque o assunto costuma ser tratado com má-fé: a obesidade é uma condição de saúde séria, com determinantes metabólicos, genéticos, sociais e econômicos. Existe tratamento, ele funciona e ele deve ser conduzido por médico. Nada aqui é convite para abandonar acompanhamento clínico, e nada aqui substitui prescrição.
O Ministério da Saúde, aliás, informa que a classe ainda não é oferecida pelo SUS e que a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias analisa um pedido de incorporação da semaglutida — o que significa que, hoje, o acesso passa por bolso, plano ou desvio.
Feita a ressalva, fica a questão que aparece no consultório. Porque o que chega à escuta psicanalítica quase nunca é a pergunta "esse remédio funciona?". É outra, dita depois, muitas vezes em voz mais baixa: "emagreci e continuei do mesmo jeito".
Necessidade não é desejo
Freud fez, bem no começo, uma distinção que a cultura contemporânea insiste em apagar: a diferença entre a necessidade e a pulsão.
A necessidade tem objeto certo e ponto final. Quem tem sede bebe água e a sede acaba. A pulsão não funciona assim. Ela não tem um objeto que a satisfaça de vez; ela contorna, insiste, muda de alvo e volta. É por isso que a psicanálise diz que o desejo é, por estrutura, insatisfeito — não por defeito, não por trauma, mas por definição.
A fome do corpo é necessidade. A fome que come sozinha à meia-noite, a que come sem sentir gosto, a que come depois de uma conversa difícil e não durante ela, essa não é necessidade. Essa é outra coisa usando a boca.
Um medicamento que atua sobre o apetite atua, com toda a legitimidade, sobre a necessidade. Ele reduz o sinal fisiológico da fome. O que ele não faz — e nem promete fazer — é responder à segunda fome. Essa continua ali, e vai procurar outro caminho: a compra, a tela, o trabalho, o relacionamento, o próximo projeto.
O corpo como resposta pronta
Há uma razão pela qual o corpo se tornou o lugar preferencial dessa aposta.
O corpo é a única coisa que parece estar sob controle direto. Não dá para decidir ser amado, não dá para decidir que o trabalho vá reconhecer, não dá para decidir que a família mude. Mas dá para decidir sobre o corpo — ou parece dar. Diante de uma vida cheia de variáveis que não obedecem, ele vira o campo onde ainda é possível ter agência.
E aí a promessa se organiza numa frase que quase todo mundo já formulou de algum jeito: quando eu estiver com o corpo certo, aí sim. Aí sim eu me exponho, aí sim eu me aproximo, aí sim eu começo. A meta funciona como adiamento organizado. Enquanto ela não chega, a vida fica de molho, e isso alivia — porque adiar dói menos do que arriscar.
O problema é o dia seguinte à chegada. Quando a meta é atingida e o "aí sim" não acontece, o que se revela é que o corpo nunca foi o obstáculo. Ele era o álibi.
O caso que não é sobre estética
A história que circulou em Minas nesta semana deixa isso mais evidente do que qualquer teoria. Uma mulher de 42 anos, moradora de Belo Horizonte, comprou de um vizinho, por aplicativo de mensagens, um medicamento trazido do Paraguai, sem prescrição. Foi internada em dezembro de 2025. Teve pancreatite, insuficiência renal e síndrome de Guillain-Barré, passou quatro meses em terapia intensiva e hoje faz reabilitação para recuperar movimentos e autonomia.
Nas mensagens obtidas pela família, o vendedor orientava como fracionar o medicamento e garantia que nenhum cliente havia passado mal.
O que salta ali não é ignorância. É pressa. Uma pressa disposta a comprar com desconhecido, por aplicativo, um produto injetável sem origem conhecida. Nenhuma campanha de informação alcança esse ponto, porque o problema não está na falta de informação — está na urgência que faz a informação não valer nada no momento da decisão.
A psicanálise chama isso de passagem ao ato: quando o que não pôde ser dito é executado. E a pergunta que ela devolve não é "por que você não pesquisou?", mas "o que era tão insuportável que não podia esperar?".
O que a fala faz que a caneta não faz
Nada disso é argumento contra tratamento médico. É argumento a favor de dois cuidados ao mesmo tempo.
Quando alguém entra em análise falando de comida ou de peso, o trabalho quase nunca fica na comida. Ele vai para o lugar onde a comida entrou: uma casa em que afeto se dava no prato, um período em que só o corpo recebia atenção, uma exigência antiga de ser impecável, um luto que ninguém nomeou. A fala vai devagar justamente onde a caneta é rápida — e é essa lentidão que produz alguma coisa duradoura.
O corpo pode mudar em meses. O que o corpo estava sustentando leva mais tempo, e não muda por decreto nem por dose.
O que a clínica oferece não é uma promessa melhor. É uma pergunta que o mercado das 21 canetas não faz e não tem como fazer: fome de quê?
Se você está em tratamento para obesidade, siga com seu médico — e, se junto com o corpo aparecer uma angústia que não passa, procure também um espaço para falar dela. As duas coisas cabem na mesma semana.