Há uma frase que aparece muito nos relatos de quem viveu a enchente de 2024 no Rio Grande do Sul: "agora eu não consigo mais dormir quando chove". Não é força de expressão. É a descrição precisa de um estado do corpo — o ouvido que passa a monitorar o telhado, o sono que vira vigília, a mala que fica meio arrumada no armário sem que ninguém tenha decidido isso conscientemente.
Esse é o material que o Projeto Recomeçar, do Hospital Moinhos de Vento em parceria com o Ministério da Saúde, decidiu acolher. O programa oferece atendimento psicológico gratuito a pessoas a partir de 16 anos afetadas pela catástrofe, com foco naquilo que já vem sendo chamado de ansiedade climática. Mais de cem pessoas já foram atendidas; a meta é fazer triagem de 10 mil moradores e tratar ao menos mil até o fim do ano. Para os casos de sofrimento leve a moderado, são sete sessões on-line; os quadros mais graves são encaminhados para acompanhamento especializado.
Um dado dito de passagem pelo psiquiatra Jader Piccin, do próprio hospital, merece ser lido devagar: o impacto emocional de desastres pode persistir por até dez anos. Dez anos é muito mais do que o tempo que a água leva para baixar, do que o tempo do reboco secar, do que o tempo que a cobertura jornalística sustenta o assunto.
Susto, medo, angústia: três palavras que não são sinônimos
A psicanálise trabalha com uma distinção que ajuda muito aqui, e que Freud formulou em 1920, num texto escrito à sombra das neuroses traumáticas da Primeira Guerra. Ele separa três estados que o português tende a embaralhar.
O susto é o que acontece quando o perigo chega sem aviso e o aparelho psíquico é atravessado sem estar preparado. Não houve tempo de erguer nenhuma barreira. É o rio na sala às três da manhã.
O medo tem objeto. Tenho medo de alguma coisa: da água, do vento, daquele barulho específico. É delimitável, e por isso mesmo, de certo modo, mais suportável — dá para apontar.
A angústia é diferente das duas. É um estado de expectativa, de preparação para um perigo que ainda não tem forma. É a chuva de terça-feira que não vai alagar nada e mesmo assim tira o sono.
A tese de Freud, que parece contraintuitiva, é que a angústia é uma tentativa de proteção. Ela é o esforço tardio do psiquismo de estar pronto para aquilo que da primeira vez o pegou desprevenido. Quando o psiquiatra do Moinhos de Vento observa que muitas pessoas "já se preparam com uma evitação ou com algum tipo de ansiedade com relação às chuvas que podem ocorrer", está descrevendo, na linguagem da clínica contemporânea, exatamente esse movimento.
Por que o trauma insiste em voltar
A pergunta que mais escutamos, na clínica, de quem passou por algo assim, é uma variação de: por que eu ainda penso nisso? Já passou. Reconstruí. Por que meu corpo não entendeu?
A resposta psicanalítica é incômoda, mas útil: porque não passou por dentro. O trauma, na leitura freudiana, não é apenas a intensidade do evento; é a impossibilidade de traduzi-lo em palavras no momento em que aconteceu. O que não pôde ser dito não é esquecido — é arquivado sem legenda. E aquilo que não tem legenda não pode ser lembrado como passado. Volta como presente: no sobressalto, na insônia, no cheiro de barro que aparece sem convite.
É por isso que a repetição, aqui, não é masoquismo nem fraqueza. É uma tentativa. O psiquismo insiste no mesmo ponto pelo mesmo motivo pelo qual a língua volta ao dente quebrado: está tentando dar conta de algo que ficou sem contorno.
O que a enchente levou junto com os móveis
Há um aspecto dessa catástrofe específica que a clínica escuta o tempo todo e que os números não capturam. A enchente não destruiu apenas patrimônio. Ela desmentiu uma certeza silenciosa que sustenta a vida cotidiana — a de que o chão fica onde está.
Uma casa não é só um bem. É uma promessa de continuidade: aqui eu volto, aqui as coisas ficam, aqui meu passado tem endereço. Quando a água entra, ela dissolve fotos, mas dissolve também essa promessa. E é comum que a pessoa reconstrua a casa inteira e siga se sentindo sem chão — porque o que ruiu não estava no alvenaria.
Algo parecido acontece com o tempo. Quem viveu um desastre costuma passar a organizar a própria biografia em torno dele: antes e depois. Nada estranho nisso; é assim que os marcos funcionam. O problema começa quando o "depois" não avança, quando toda notícia de temporal reabre o mesmo capítulo e a vida fica orbitando um único acontecimento.
A ecoansiedade não é um exagero — nem um rótulo
Vale dizer com clareza: ansiedade climática, ou ecoansiedade, não é uma categoria diagnóstica formal. É um nome descritivo para uma resposta emocional intensa diante de transformações ambientais, e é assim que a reportagem do g1 corretamente a apresenta.
Essa imprecisão tem um lado bom e um lado ruim. O lado bom é que ela não transforma em doença uma reação que, em boa medida, é lúcida: quem viu a cidade submergir tem motivos objetivos para desconfiar do céu. O lado ruim é que um nome muito confortável pode virar tampa. "É ecoansiedade" pode encerrar a conversa exatamente onde ela deveria começar.
O trabalho analítico vai na direção oposta à do rótulo. Ele pergunta: e para você, o que aquilo significou? O que exatamente volta — a água, o cheiro, o telefone que não completava a ligação, a vizinha que ficou? Duas pessoas que perderam a mesma casa não perderam a mesma coisa.
Sete sessões, dez anos
Um programa que oferece sete sessões on-line e mira dez mil triagens está fazendo algo importante e necessário: criando porta de entrada. Numa emergência de saúde pública, largura de acesso vale mais do que profundidade — é preciso encontrar quem está sofrendo em silêncio, e essa é justamente a população que não procura ajuda sozinha.
Mas convém não confundir os tempos. Se o impacto emocional pode durar dez anos, sete encontros são um começo honesto, não um ponto final. Para alguns, vão bastar — a escuta chega na hora certa, a palavra circula, a vida retoma o curso. Para outros, esse será o momento em que uma história maior finalmente encontra alguém disposto a ouvi-la até o fim.
E talvez seja esse o ponto em que a psicanálise tem mais a contribuir num cenário de catástrofe. Não com técnicas de enfrentamento, que outros campos oferecem melhor, mas com a aposta obstinada de que aquilo que não pôde ser dito na hora ainda pode ser dito depois — e que dizer muda o estatuto do que se viveu. O acontecimento não deixa de ter ocorrido. Deixa de ser só um susto sem palavras e passa a ser uma história com narrador.
Quando a chuva voltar — e ela vai voltar — o corpo provavelmente ainda vai reagir. A diferença que um processo terapêutico pode fazer não é apagar a reação. É que exista, ao lado dela, alguém dentro de você capaz de dizer: eu já sei o que é isso, eu já contei essa história, e eu sobrevivi a ela.