Existe um tipo de silêncio que só aparece no consultório em algumas datas do ano. Hoje é uma delas.
No segundo domingo de agosto, o Brasil combina de sentir uma coisa só. As vitrines combinam, os anúncios combinam, os grupos de família combinam. E é justamente nessa hora que muita gente descobre que não consegue.
A data pede uma emoção pronta
O que uma data comemorativa faz, no fundo, é oferecer um roteiro. Ela diz: hoje você sente gratidão, hoje você liga, hoje você abraça. Para quem tem uma relação simples com o próprio pai — se é que isso existe —, o roteiro serve. Veste bem, é confortável, cumpre-se sem atrito.
Para muitos, não veste. E aí acontece algo curioso: a pessoa não sofre apenas pela relação difícil. Sofre também por não estar sentindo o que a data pede. Uma dor sobre a outra.
Escuto isso todos os anos, com pequenas variações. "Eu deveria ligar." "Eu ligo, mas é por obrigação, e me sinto falso." "Eu não ligo, e passo o dia com um peso." "Meu pai morreu e todo mundo acha que eu já deveria ter superado." "Meu pai está vivo e é como se não estivesse."
Repare que nenhuma dessas frases é sobre o pai. Todas são sobre uma dívida.
A ambivalência não é defeito de caráter
A palavra que a psicanálise usa para isso é antiga e continua precisa: ambivalência. Sentir, ao mesmo tempo e pela mesma pessoa, amor e raiva. Gratidão e ressentimento. Vontade de proximidade e vontade de distância.
Não é contradição a ser resolvida. É o funcionamento normal de qualquer vínculo que importa de verdade. Ninguém é ambivalente com um desconhecido.
O problema é que quase ninguém se autoriza a isso. A cultura oferece dois compartimentos — o pai bom, que merece homenagem, e o pai ruim, que merece afastamento — e exige que se escolha um. Quando a experiência real não cabe em nenhum dos dois, a pessoa conclui que o defeituoso é ela.
Muito do que se apresenta como culpa em agosto é, na verdade, ambivalência sem lugar para existir.
O pai que não é só o homem
Há outra camada, e ela costuma surpreender quem chega ao divã pela primeira vez.
Quando se fala de pai numa análise, não se está falando apenas do senhor que mora em tal cidade e tem tal idade. Está-se falando também de uma função — de tudo que aquela figura representou como lei, como limite, como referência de o que se pode e o que não se pode, como modelo do que é ser adulto no mundo.
Por isso é possível ter feito as pazes com o homem e continuar em guerra com o que ele instalou. E por isso, também, é possível que alguém cuja relação com o pai foi calorosa ainda assim carregue uma exigência interna impossível de satisfazer — uma voz que cobra, que compara, que nunca acha suficiente.
Essa voz raramente se apresenta dizendo "eu sou seu pai". Ela se apresenta como se fosse você mesmo pensando.
O que se repete sem que a gente perceba
O que mais me chama atenção, na clínica, não é o que as pessoas dizem sobre seus pais. É o que elas fazem sem relacionar a eles.
A pessoa que jura ter construído uma vida oposta à do pai e descobre, aos quarenta, que reproduz o mesmo silêncio dentro de casa. A que escolheu uma profissão para contrariar e passa a vida buscando aprovação da mesma natureza. A que se afastou geograficamente e continua, todos os dias, discutindo mentalmente com alguém que não está na sala.
Essa é a repetição de que a psicanálise fala. Não é maldição nem determinismo. É o que acontece quando algo não pôde ser dito, elaborado, atravessado com palavras — e então continua sendo encenado.
O afastamento resolve a convivência. Não resolve a inscrição.
O telefonema
Volto ao começo.
Muita gente vai passar hoje decidindo se liga. Vai ensaiar mentalmente a conversa, calcular o horário, pensar no que dizer para não abrir nenhuma porta que não queira abrir. Alguns vão ligar. Outros não. Uma parte vai passar o domingo inteiro nessa negociação interna e chegar à noite exausta sem ter feito nada.
Não tenho conselho sobre ligar ou não ligar. Não é disso que uma análise trata, e desconfio de quem tem certeza sobre a vida dos outros.
Mas tenho uma observação. Na maioria das vezes, o que consome a pessoa não é a decisão em si. É o tribunal. É o fato de que qualquer escolha vem acompanhada de uma sentença — egoísta se não ligar, hipócrita se ligar. O sofrimento mora no tribunal, não no telefone.
E tribunais internos, ao contrário dos outros, funcionam melhor no escuro. Quando alguém finalmente diz em voz alta, para outra pessoa, aquilo que vinha julgando sozinho há vinte anos, algo se afrouxa. Não porque a frase resolva o passado — ela não resolve —, mas porque deixa de ser uma sentença secreta e vira uma coisa que pode ser examinada.
Para quem o dia é de luto
Uma palavra final para quem perdeu o pai.
Datas assim reabrem. E há uma pressão social, sutil mas constante, para que o luto tenha prazo — para que, passado um tempo razoável, a pessoa "já esteja bem". Não funciona assim, e a pressa em superar costuma ser da plateia, não de quem perdeu.
Luto não é esquecer. É encontrar, ao longo do tempo, um lugar interno para alguém que não está mais no lugar externo. Isso leva o tempo que leva, e volta em ondas — em agosto, no aniversário, no cheiro de alguma coisa numa tarde qualquer.
Se hoje for um domingo pesado, ele não precisa ser um domingo produtivo. E se esse peso vier acompanhado de sofrimento intenso, insônia persistente ou pensamentos de morte, procure ajuda — não há nada de fraqueza nisso. O CVV atende pelo 188, 24 horas por dia.
Quanto ao resto: quase tudo que não pôde ser dito a um pai ainda pode ser dito. Só que não necessariamente a ele.
Às vezes é preciso alguém que escute primeiro.