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Psicanálise

O silêncio depois da conquista

O silêncio depois da conquista

Tem uma cena que se repete no meu consultório, sempre com roupas diferentes. Alguém chega, senta, respira fundo e diz, quase envergonhado: “consegui o que eu queria — e não senti nada”. A promoção veio. A casa foi assinada. O corpo chegou onde devia chegar. O número de seguidores passou daquela marca invisível que parecia que ia mudar tudo. E, no lugar da festa que a pessoa ensaiou por dentro durante anos, apareceu um silêncio estranho. Uma terça-feira igual às outras.

Vivemos um tempo que trata a vida como uma escada de conquistas. As redes são uma vitrine de chegadas: o diploma, a viagem, a reforma pronta, o antes e depois. Tudo parece sussurrar que existe um ponto lá adiante onde a gente vai finalmente poder descansar de si mesmo. Por isso o vazio que vem depois assusta tanto. Ele não estava no roteiro. Ninguém combinou com a gente que a chegada pudesse ter esse gosto de nada.

O que a conquista prometia em segredo

Quando a gente deseja muito uma coisa, raramente é só a coisa que a gente deseja. Por baixo do objeto — o cargo, o carro, o corpo, o reconhecimento — costuma morar uma promessa mais antiga, quase muda: quando eu chegar lá, vou me sentir suficiente. Vou ser visto. Vou parar de me sentir em falta. O objeto vira o endereço de um pedido que a gente nem sabe direito que faz.

Aí está o nó. A gente alcança o objeto, mas o objeto nunca prometeu nada disso. Foi a nossa história que pendurou nele um peso que ele não tem como carregar. A promoção é só uma promoção. Ela não tinha como devolver aquele olhar de aprovação que faltou lá atrás — num professor, num pai, em alguém cujo reconhecimento a gente ficou esperando a vida inteira. Por isso o troféu na mão pesa menos do que pesava na imaginação.

O desejo não mora no ponto de chegada

Freud percebeu, de um jeito ou de outro, que o desejo é insistente e um tanto teimoso: assim que encontra o que procurava, ele se desloca, aponta para outra coisa, um pouco mais adiante. Não porque a gente seja incapaz de ser feliz — mas porque desejar é isso, um movimento, e não um armazém que se enche até a borda. O desejo não quer ser preenchido. Ele quer continuar vivo.

Isso muda a cor do vazio. Aquela sensação de “e agora?” no dia seguinte à conquista não é sinal de que você escolheu a coisa errada, nem de que há algo quebrado em você. Muitas vezes é só o desejo respirando de novo, procurando para onde ir. O problema não é o vazio em si. É a pressa de tapá-lo — com a próxima meta, a próxima compra, o próximo nível — antes mesmo de escutar o que ele tem a dizer.

Quando a próxima meta é uma fuga

Tem uma armadilha silenciosa aqui. Para não sentir o silêncio, a gente já engata o próximo objetivo. Mal terminou de subir um degrau e já está de olho no de cima. Vira uma corrida sem linha de chegada, em que cada vitória dura o tempo de um story e a seguinte já está cobrando presença. De fora, parece ambição, garra, disciplina. Por dentro, às vezes, é fuga — uma maneira de nunca ficar sozinho com a pergunta que o vazio faz.

Essa repetição tem um preço. A pessoa vai colecionando chegadas e, no fundo, nunca chega. Fica sempre a um passo de finalmente descansar. E o corpo, uma hora, cobra a conta: o cansaço que nenhuma vitória cura, a irritação sem motivo claro, aquela tristeza de domingo à noite mesmo tendo tudo “dado certo”. A angústia não é defeito de fábrica. É um aviso de que alguma coisa em nós está pedindo para ser ouvida, e não silenciada com mais uma conquista por cima.

O vazio como um recado

Na clínica, eu não trabalho para preencher esse vazio. Seria uma promessa falsa, dessas que já não faltam por aí. O que a análise oferece é outra coisa, mais discreta e mais honesta: um lugar para escutar o vazio em vez de tapá-lo às pressas. Perguntar, sem susto, o que exatamente você esperava sentir quando chegasse lá. Quem você imaginava que estaria aplaudindo. De quem era, afinal, aquele desejo que você passou anos perseguindo — seu, ou de alguém que você tentava agradar?

Quando essas perguntas ganham palavra, alguma coisa se afrouxa. A pessoa começa a distinguir o que ela de fato quer daquilo que aprendeu que devia querer. Descobre desejos que estavam abafados debaixo das metas herdadas, dos “tem que”, do que se espera de alguém como ela. E o vazio, que parecia um fim de linha, vira outra coisa: o espaço onde um desejo mais próprio, mais seu, pode enfim nascer.

Chegar não é o fim da história

Não escrevo isto para te convencer a parar de querer coisas. Querer é bonito, move a vida, tira a gente da cama de manhã. Escrevo porque acho que a gente merece uma relação menos cruel com as próprias conquistas — uma em que chegar não precise ser imediatamente esvaziado pela próxima corrida, e em que o silêncio depois da vitória possa ser habitado com calma, e não temido como um erro.

Se você reconheceu algo seu nessas linhas — essa sensação de estar sempre chegando e nunca chegando, esse vazio logo depois do que devia ser alegria —, talvez valha a pena não atravessar isso sozinho. Um processo de análise é, no fundo, esse convite: sentar com o que se sente, dar nome ao que ainda não tem, e escutar, sem pressa, o desejo que insiste por baixo de toda conquista. Não para preencher o vazio de uma vez — mas para deixar, aos poucos, de ter medo dele.

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