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Psicanálise

Duzentas opções e nenhuma vontade

Duzentas opções e nenhuma vontade

Uma paciente me contou, meio sem graça, que tinha passado quarenta minutos rolando o catálogo de um serviço de streaming e depois desligado a televisão. Não achou nada. Foi dormir com a sensação de ter perdido a noite — o que, de certa forma, tinha acontecido.

O que me chamou atenção não foi a cena. Foi a frase que veio depois: "eu não estava sem opção, eu estava sem vontade".

Guardei isso. Tenho escutado variações dela com uma frequência que não me parece coincidência.

O cansaço que ninguém conta como trabalho

Um dia comum hoje pede uma quantidade absurda de microdecisões. O que almoçar, entre cento e tantos restaurantes na tela. Que fone comprar, entre quarenta modelos com especificações que ninguém entende. Que série começar. Que plano de celular. Que caminho pegar, se o aplicativo oferece três com dois minutos de diferença.

Nenhuma dessas escolhas é grave. Todas custam alguma coisa.

E há uma peculiaridade nesse custo: ele não é reconhecido. Ninguém chega em casa dizendo "estou exausto de ter decidido". Diz que está cansado do trabalho, do trânsito, da rotina. O desgaste de escolher fica invisível justamente porque cada escolha, sozinha, parece boba.

Só que ao fim do dia, quando sobra o tempo que era para ser de prazer, a pessoa senta no sofá e descobre que não consegue mais escolher nem o que quer fazer com o próprio descanso.

Escolher não é o mesmo que desejar

Aqui está o ponto que a psicanálise ajuda a enxergar, e que o discurso do "mundo de possibilidades" costuma esconder.

Escolher e desejar são operações diferentes. Escolher é comparar opções disponíveis e apontar uma. Desejar é outra coisa — tem a ver com uma falta que não se preenche, com algo que não está no cardápio, com um querer que não foi encomendado.

O mercado trata as duas como sinônimo. Ele oferece mais opções acreditando que está oferecendo mais desejo. Mas o desejo não se produz por acúmulo. Ele se produz por corte.

Quando tudo está disponível, nada falta. E onde nada falta, o querer não tem onde se apoiar. É por isso que o excesso de oferta pode produzir exatamente o oposto do que promete: uma abundância que dá tédio.

Toda escolha é uma pequena perda

Existe uma coisa que a gente aprende cedo e finge esquecer: escolher é abrir mão.

Quando escolho um filme, deixo de ver todos os outros. Quando escolho uma cidade, não vivo nas demais. Quando escolho uma pessoa, renuncio a um monte de vidas paralelas que só existiram na imaginação — e que, justamente por só terem existido lá, permanecem intactas e sedutoras.

Diante de duzentas opções, a conta da renúncia fica pesada demais. Escolher uma significa perder cento e noventa e nove. E aí acontece o movimento que eu mais escuto: a pessoa não escolhe nada, para não perder nada.

Rolar o catálogo por quarenta minutos e desligar a televisão não é indecisão. É uma solução. Enquanto não escolhe, todas as possibilidades continuam vivas. O preço é não ter visto filme nenhum.

A fantasia de que existe a opção certa

Tem ainda um agravante moderno, e ele é cruel.

A ideia de que, em algum lugar daquela lista, existe a escolha certa. O restaurante que teria sido perfeito. O curso que teria mudado tudo. A vaga que era a sua. A pessoa que era a sua.

Essa fantasia transforma qualquer escolha comum num teste de discernimento. Não basta gostar do que se escolheu; é preciso ter acertado. E, como não há como saber o que teria acontecido nos outros caminhos, o veredicto nunca chega. O que chega é a dúvida, que fica rondando o que já foi decidido.

Escuto muito isso em relação a coisas grandes. Casamento, profissão, cidade, filho. A queixa raramente é "estou infeliz". É "e se eu tivesse". Um tempo verbal que não existe na vida, só na cabeça.

O algoritmo não resolve — e desloca

Alguém poderia dizer: mas hoje a plataforma escolhe por você, recomenda, personaliza. Resolvido.

Não é bem assim. O que a recomendação faz é devolver uma versão de você mesmo, montada a partir do que você já consumiu. Ela é excelente em prever o que vai te agradar e péssima em oferecer o que poderia te transformar. O desejo, quando é vivo, costuma te levar para onde você não previa ir — e o algoritmo é, por construção, uma máquina de confirmar o previsto.

Escolher com a ajuda de quem te conhece só pelas suas repetições é escolher sempre a mesma coisa com nomes diferentes.

O que a escuta faz com isso

Não faço promessa de método. Não tenho lista de cinco passos para decidir melhor, e desconfio de quem tem.

O que acontece numa análise é mais lento e mais interessante. A pessoa começa contando que não consegue escolher, e em algum momento a conversa desvia — e vai parar num lugar que não tinha nada a ver com cardápio. Numa cobrança antiga. Num medo de decepcionar. Numa lealdade a alguém que não está mais aqui. Numa vontade que ela nunca deixou dizer em voz alta porque, dita, obrigaria a mudar alguma coisa.

Aí a paralisia diante das opções começa a fazer sentido. Ela não estava travada por causa das duzentas alternativas. As duzentas alternativas eram o lugar mais confortável para ficar travada.

Porque escolher exige suportar a perda, e suportar a perda exige saber, minimamente, o que se quer. Muita gente chega ao consultório justamente por não saber — e por ter passado a vida inteira sem que ninguém perguntasse.

Uma nota necessária

Se o cansaço de decidir vem acompanhado de coisas que passam do incômodo — semanas sem conseguir levantar, sono desorganizado, perda de peso, pensamentos de que não vale a pena —, aí não é assunto para ensaio nem para reflexão sobre streaming. Aí é caso de procurar avaliação com médico ou psicólogo, e é importante fazer isso.

O que descrevo aqui é o outro tipo de coisa. O desconforto silencioso de quem tem tudo disponível e não sabe o que quer.

Para esse, o caminho não é ter menos opções. É ter mais palavra sobre o que se quer — o que só se descobre falando, e escutando o que se falou.

Naquela sessão, a paciente terminou dizendo que talvez o problema não fosse o catálogo. Que talvez ela não quisesse ver filme nenhum e não estivesse conseguindo admitir que queria só ficar quieta.

Foi a coisa mais decidida que ela disse em semanas.

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