PsicoCast
Saúde & Bem-estarAgende uma sessão
Ensaios

As férias que não descansam

As férias que não descansam

Todo mês de julho eu escuto alguma versão da mesma frase. Ela chega meio envergonhada, quase como confissão:

"Eu tirei férias e voltei mais cansado."

A pessoa diz isso e ri, porque parece absurdo. Ela foi. Ela tinha os dias. Ela fez o que era para fazer. E ainda assim voltou como quem cumpriu jornada — não como quem descansou.

Eu queria pensar um pouco sobre isso, porque acho que é uma das coisas mais reveladoras que a vida contemporânea produz. E porque ela não é sobre férias.

O descanso virou uma tarefa

Repare no verbo que a gente usa. Ninguém mais descansa nas férias. As pessoas aproveitam as férias.

E aproveitar é um verbo de rendimento. Aproveitar supõe que existe algo ali passível de ser extraído, e que deixar de extrair é desperdício. Você não aproveita um sofá. Você aproveita uma oportunidade.

Então é isso que as férias viraram: uma janela de oportunidade com prazo de validade. Quinze dias. Trinta, se você for sortudo. E dentro dessa janela é preciso produzir descanso, produzir memória, produzir foto, produzir a experiência que justifique o investimento.

O que se instala é uma coisa muito estranha: o descanso passa a ter meta. E a meta é a morte do descanso, porque descanso é exatamente o estado em que não há meta.

Eu escuto pessoas planejando férias com a mesma expressão com que planejam entrega de trabalho. A mesma tensão no maxilar. A mesma preocupação com o rendimento. Só que agora o produto a ser entregue é a própria alegria.

"Preciso aproveitar" é uma ordem — e ordem de quem?

Quando alguém me diz "eu preciso aproveitar", eu costumo perguntar quem está mandando.

A pergunta parece boba, e a primeira reação em geral é o riso. Mas ela não é boba. Porque "preciso" é linguagem de obrigação, e obrigação tem sempre alguém do outro lado da mesa cobrando. Só que aqui não tem ninguém. Não tem chefe. Não tem cliente. Não tem prazo.

A cobrança não vem de fora. Ela já está dentro, instalada, funcionando sozinha — e a marca dela é essa: ela não descansa nem quando você descansa.

A psicanálise tem um nome para essa instância que cobra por dentro, e o interessante é que ela não é apenas proibidora. A gente costuma imaginar essa voz interna como aquela que diz "não faça". Mas ela tem uma versão bem mais cruel, e é a que está em alta: a que manda gozar. A que exige que você aproveite. Que ordena que você seja feliz naqueles quinze dias, e que faz de você um fracassado se não for.

Proibir é uma coisa. Você desobedece, se sente culpado, segue a vida. Mandar aproveitar é outra. Não tem como desobedecer nem como cumprir. Porque alegria não vem por decreto — e quanto mais você se cobra, mais ela se afasta.

É um mandato que só produz dívida. Você volta devendo férias às suas próprias férias.

O que aparece quando o barulho para

Mas eu acho que tem outra coisa acontecendo, e essa é a que mais me interessa.

Tem gente que não consegue parar não porque a agenda não deixa — mas porque parar é perigoso.

Enquanto a semana corre, a pessoa é o que ela faz. Ela é a função, a entrega, a resolução do problema do dia. Isso é bastante estável. Isso ocupa. E, sobretudo, isso não deixa espaço para uma certa pergunta aparecer.

Aí chega o quarto dia de férias. A caixa de entrada silenciou. Ninguém está esperando nada. E vem um vazio esquisito, que não é tédio exatamente, é mais um desconforto — como se faltasse alguma coisa que a pessoa não sabe nomear.

Esse é o momento em que quase todo mundo pega o celular.

Não é por causa do aplicativo. O aplicativo é só o que estava mais perto. O que está sendo evitado ali é o encontro com uma pergunta que a rotina mantém adiada o ano inteiro: é isso que eu quero da minha vida?

A rotina é ótima para isso. Ela é um ruído contínuo e legítimo — ninguém pode te acusar de estar fugindo quando você está trabalhando. Já as férias tiram o ruído. E no silêncio, o que estava embaixo sobe.

Então a pessoa lota as férias. Ela vai a cinco cidades em dez dias. Ela leva o notebook. Ela responde "só uma coisinha rápida". Ela reforma a casa nas férias. E ela volta exausta e diz que não conseguiu descansar, como se fosse azar.

Não é azar. Deu certo. Era exatamente para não descansar. O cansaço foi o preço de não ter que escutar.

O tempo que não rende

Há ainda uma dificuldade específica com o tempo vazio, e ela é da nossa época.

A gente aprendeu a medir tempo em rendimento. Uma hora bem gasta é uma hora que produziu algo — conhecimento, dinheiro, avanço, prazer registrável. E o tempo que não produz nada passou a parecer roubo.

Mas o tempo que não rende é justamente onde algumas coisas acontecem.

É na hora vaga que uma ideia aparece do nada. É no tempo morto que uma lembrança antiga sobe sem ser chamada. É quando você não está indo a lugar nenhum que você percebe que está infeliz naquele emprego há três anos — e que sabia disso o tempo todo.

Esse tempo não rende porque ele não é para render. Ele é para deixar vir. E se ele nunca acontece, essas coisas não somem: elas ficam esperando. Voltam de noite, quando você apaga a luz e o corpo enfim para. É por isso que tanta gente só encontra o próprio pensamento à uma da manhã, olhando o teto, e chama isso de insônia.

O que eu costumo dizer

Eu não tenho uma técnica de descanso para oferecer, e desconfio bastante de quem tem. Método de relaxamento tende a ser o mesmo mandato de rendimento vestido com roupa de yoga: mais uma meta, mais uma coisa que você pode fazer errado.

O que eu costumo propor é mais modesto e mais difícil. É reparar no incômodo em vez de correr dele.

Quando aparecer aquele vazio esquisito no quarto dia — e ele vai aparecer —, tente não preencher imediatamente. Fica cinco minutos. Não para meditar, não para nada. Só fica.

É desagradável. Vai ser desagradável mesmo. Mas essa coisa que sobe quando o barulho para é a única que tem algo novo a dizer. O resto você já sabe: o resto é o que você repete há anos.

E o que sobe não vem para punir. Vem porque nunca teve espaço.

O que as férias revelam

Por isso eu acho que a frase do começo não é sobre férias.

Quem não consegue descansar em quinze dias não vai conseguir descansar em trinta. O problema não é o tamanho da janela. É que a pessoa carrega junto, na mala, aquilo de que estava tentando tirar férias.

As férias apenas revelam. Elas tiram o pretexto. Sem o trabalho para explicar a pressa, a pressa aparece nua — e fica evidente que ela nunca foi do trabalho. Era sua. O trabalho só emprestou um endereço respeitável para ela morar.

Essa descoberta é chata, mas é boa. Porque o que é seu, você pode olhar. O que é do mundo lá fora, não.

Se você voltou das férias mais cansado, talvez não valha a pena se irritar com isso. Vale mais perguntar do que exatamente você não conseguiu descansar. Provavelmente não era do escritório.

E isso, sim, é conversa para uma sessão.


Diogo Caspary é psicanalista e atende online. Se algo aqui ressoou, a escuta começa por uma conversa.

Leia também

Baixe grátis: 4 atividades do kit (rotina visual + comunicação para imprimir)

Deixe seu melhor e-mail e a amostra abre na hora. Sem spam — cancele quando quiser.

Vale a leitura