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A pressa que não deixa nada acontecer

A pressa que não deixa nada acontecer

Reparei numa coisa pequena e passei semanas pensando nela. Quando um vídeo demora três segundos para carregar, eu já estou com o dedo pronto para sair dali. Três segundos. Não é impaciência com o vídeo — é impaciência com o intervalo.

E o intervalo, na minha profissão, é praticamente tudo.

O que a espera virou

Houve uma inversão silenciosa nas últimas duas décadas, e ela é mais radical do que costumamos admitir. A espera deixou de ser uma característica do mundo para virar um defeito. Um erro de projeto. Uma fricção a ser eliminada.

Não temos mais que esperar a comida, o filme, a resposta, a música, o táxi, a opinião de alguém sobre o que acabamos de publicar. Cada uma dessas eliminações foi, isoladamente, uma conquista. Somadas, produziram outra coisa: uma sensibilidade que interpreta qualquer demora como falha.

O problema é que nem tudo que importa é entregável. Luto não tem prazo de entrega. Uma decisão amadurecida não tem. Uma mudança real de posição diante da própria vida, então, muito menos.

Quando a única relação possível com o tempo é a da entrega imediata, tudo o que exige maturação passa a ser vivido como sofrimento desnecessário — algo que deveria ter uma solução, e que só não tem porque eu ainda não achei a solução certa.

O que escuto no consultório

Chega gente ao consultório dizendo, com todas as letras, que quer resolver isso rápido. É um pedido legítimo, e eu não o desprezo. Ninguém procura ajuda querendo permanecer no incômodo.

Mas às vezes eu percebo — e digo — que a pressa não é apenas o modo como a pessoa quer resolver. A pressa é parte do que ela veio resolver.

Uma pessoa que não suporta esperar não está apenas com uma agenda cheia. Ela está, frequentemente, evitando alguma coisa que só aparece quando a agenda esvazia. É por isso que tanta gente descreve o domingo à tarde como o momento mais difícil da semana. Não é que domingo seja triste. É que domingo é quando não tem o que fazer, e quando não tem o que fazer, aparece o que estava embaixo.

A aceleração, nesses casos, cumpre função. Ela não é o inimigo do sujeito — é a solução que ele encontrou. Uma solução cara, exaustiva, mas funcional: enquanto eu não parar, eu não encontro.

O desejo precisa de uma frestas de ausência

Há uma coisa que a psicanálise diz há mais de um século e que a cultura da entrega instantânea tornou quase incompreensível: desejo não sobrevive à satisfação imediata.

Não é moralismo, não é elogio da privação. É uma constatação sobre como o aparelho psíquico funciona. O desejo se sustenta na falta — no intervalo entre querer e ter. Elimine o intervalo e o que resta não é o desejo realizado; é o desejo apagado, substituído por consumo.

Por isso tanta gente descreve uma sensação estranha de vazio depois de conseguir exatamente o que queria. Não é ingratidão. É que a coisa chegou rápido demais para que houvesse tempo de desejá-la de verdade. O objeto veio antes que a falta pudesse se instalar — e sem falta, não há o que se realizar.

Escuto isso com frequência em pessoas que conquistaram muito e sentem pouco. Elas não têm um problema de gratidão. Têm um problema de tempo.

O que só acontece devagar

Existe um tipo de coisa que só acontece no intervalo, e vale nomear porque é fácil esquecer.

Compreensão. Não a informação, que é instantânea, mas a compreensão — o momento em que algo que você já sabia há anos de repente significa outra coisa. Isso não se acelera. Chega quando chega, e geralmente chega quando você estava fazendo outra coisa.

A palavra certa. Todo mundo já viveu a experiência de descobrir, dias depois de uma conversa, o que realmente queria ter dito. A pressa nos faz falar. Só o tempo nos faz dizer.

A mudança de posição. Não a decisão — decisão é rápida e frequentemente falsa. A mudança de posição diante da própria história é lenta, quase imperceptível, e só se reconhece em retrospecto. Um dia a pessoa percebe que aquilo que a paralisava há dez anos simplesmente não a paralisa mais, e não sabe apontar quando isso mudou.

É por isso que uma análise não tem prazo definido. Não é má vontade nem modelo de negócio. É que o objeto de trabalho não responde a cronograma. Quem promete resultado psíquico em número fixo de encontros está prometendo o que não pode entregar — ou está falando de outra coisa.

Um elogio possível ao intervalo

Não pretendo defender a lentidão como virtude. Lentidão pela lentidão é só outra forma de fetiche, e a vida real tem prazos, contas, filhos para buscar na escola.

O que eu proponho é mais modesto: desconfiar da própria pressa. Não obedecê-la automaticamente.

Quando a urgência aparecer com força — resolver hoje, responder agora, decidir antes de dormir —, vale uma pergunta que não custa nada: o que aparece se eu esperar?

Às vezes a resposta é: nada, era mesmo urgente. Ótimo, resolve-se e segue.

Mas às vezes o que aparece é justamente o que a pressa estava servindo para não deixar aparecer. E aí, curiosamente, o assunto deixa de ser a urgência e passa a ser aquilo. Que é onde a conversa fica interessante.

Tem uma frase que eu costumo pensar e raramente digo, porque soa mais bonita do que útil. Mas ela é honesta: as coisas mais importantes da vida de uma pessoa não acontecem enquanto ela está fazendo algo. Acontecem no espaço que sobra.

Uma vida sem espaço que sobra é uma vida muito produtiva. E, com uma frequência que assusta, uma vida em que quase nada aconteceu.

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