Uma das frases que mais escuto no consultório é uma variação disto: "eu não tenho do que reclamar".
Quase sempre ela vem antes de uma reclamação. E quase sempre é dita com uma espécie de pedido de desculpa, como se a pessoa precisasse justificar por que está ali ocupando aquele horário. Ela tem emprego, tem casa, tem gente por perto. Do lado de fora, a vida está em ordem. Do lado de dentro, alguma coisa não fecha — e o fato de não fechar apesar de tudo estar em ordem é, muitas vezes, a parte mais dolorida.
Quando essa conversa avança, com frequência aparece um personagem que ninguém tinha convidado: os outros. Não os outros de carne e osso, os que a pessoa encontra no elevador ou no almoço de domingo. Os outros de tela. Os que viajaram, os que reformaram, os que estão radiantes num casamento, os que anunciaram uma promoção com uma legenda modesta demais para ser modesta.
O palco e o bastidor
Há uma assimetria que a gente conhece de cabeça e esquece de sentir: a nossa vida a gente vê inteira, e a dos outros a gente vê editada.
De nós mesmos temos acesso ao material bruto — as três da manhã, a discussão que não terminou bem, o dia em que não deu conta, a conta que não fechou, a vontade que não veio. Dos outros, temos o corte final. Quinze segundos escolhidos entre dezoito horas.
O problema não é sabermos disso. Todo mundo sabe. O problema é que saber não desativa o efeito. A comparação não é um raciocínio que a gente faz e pode refutar com argumento. É algo mais rápido e mais antigo do que o argumento. Antes de qualquer avaliação, já houve uma medida: eu sou menos.
É nessa fresta entre o que sabemos e o que sentimos que boa parte do sofrimento contemporâneo se instala. As pessoas que atendo raramente acreditam que a vida dos outros seja perfeita. Elas apenas se sentem como se acreditassem.
Comparar é mais antigo do que a internet
Não pretendo dizer que as redes inventaram a inveja. Seria historicamente falso e clinicamente ingênuo. A inveja é um afeto arcaico, presente muito antes de qualquer feed; a psicanálise se ocupa dela desde o começo, e a literatura, muito antes disso.
O que mudou foi a escala e a disponibilidade. Antes, a comparação exigia proximidade: o vizinho, o primo, o colega de classe. Havia um limite físico para quantas vidas cabiam no seu campo de visão, e havia contexto — você conhecia o vizinho o suficiente para saber que a casa nova tinha vindo com uma dívida junto.
Hoje a comparação é infinita e sem contexto. Você pode ser derrotado, num intervalo de dois minutos deitado na cama, por trezentas pessoas que não conhece, em trezentas dimensões diferentes da vida, todas apresentadas no seu melhor ângulo. E não há vizinho nenhum para lembrar da dívida.
O que a gente realmente inveja
Aqui a escuta analítica costuma abrir uma porta inesperada.
Quando alguém me traz uma comparação insistente com uma pessoa específica, quase nunca o objeto invejado é o que está na foto. Não é a casa, não é a viagem, não é o corpo. É uma qualidade atribuída àquela pessoa — e essa qualidade é sempre uma resposta a uma pergunta que quem está olhando carrega há muito tempo.
Um homem me disse, certa vez, que não suportava ver as publicações de um antigo colega de trabalho. Levou meses até que ele conseguisse formular o que exatamente ali o incomodava. Não era o cargo do colega. Era que o colega parecia não ter dúvida. Parecia acordar sabendo o que queria. E ele, que tinha um currículo melhor, acordava havia vinte anos com a sensação de estar no lugar errado sem saber qual seria o certo.
A inveja apontava para uma pergunta dele — o que eu quero, afinal? — que nada tinha a ver com o colega. O colega era apenas a tela onde a pergunta era projetada, e provavelmente também tinha as suas.
É por isso que a comparação, na clínica, não é tratada como um defeito de caráter a ser corrigido. Ela é lida como uma pista. Diz-me de quem tu invejas e eu te direi o que tu desejas — e, quase sempre, o que desejas ainda não tem nome.
A vitrine também aprisiona quem está dentro
Há um outro lado dessa história que também chega ao consultório, e que é menos comentado: o sofrimento de quem está do lado admirado da tela.
Quem sustenta uma imagem muito bem-acabada acaba com um problema específico: a impossibilidade de pedir ajuda sem desmentir a própria vitrine. Já ouvi mais de uma vez a frase "todo mundo acha que eu estou ótimo" dita com um cansaço que não cabia na frase.
Quando a vida que se mostra passa a ser a única linguagem disponível para se falar de si, a pessoa fica sem lugar para o que não é apresentável. E o que não é apresentável não desaparece. Ele apenas fica sem endereço.
Admiração, nesse ponto, funciona de modo parecido com elogio: chega, mas não gruda. Porque quem admira está admirando o corte final — e quem recebe sabe, com uma precisão cruel, tudo o que ficou fora do corte.
O que fazer com isso
Não vou terminar este texto com uma receita de higiene digital. Reduzir tempo de tela pode ajudar, e não custa tentar, mas seria desonesto sugerir que o problema é de configuração do aparelho. Quem se compara com trezentas pessoas por dia se compararia com trinta se houvesse trinta.
O que eu proponho é outra coisa, e é mais lenta.
Da próxima vez que aquela pontada aparecer diante de uma publicação, em vez de fechar o aplicativo com culpa ou seguir rolando com raiva, faça uma pergunta esquisita: o que exatamente eu quero que seja meu aí? Não a casa. Não a viagem. O que essa cena promete que eu ando sentindo falta?
A resposta costuma demorar e costuma surpreender. Às vezes é liberdade. Às vezes é ser levado a sério. Às vezes é simplesmente descansar sem ter que justificar o descanso.
Esse é o tipo de pergunta que raramente se responde sozinho, no ritmo do feed. Precisa de tempo, de repetição e de alguém que escute sem apressar a conclusão — que é, no fundo, o que uma análise oferece: um lugar onde a vida inteira cabe, inclusive as partes que não renderiam um bom story.
Se você tem se pegado nessa medida silenciosa com os outros e ela vem doendo mais do que você gostaria de admitir, vale conversar. É exatamente esse tipo de conversa que faço no consultório.