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O tédio que a gente não deixa acontecer

O tédio que a gente não deixa acontecer

Reparei nisso primeiro em mim, o que costuma ser o começo honesto de qualquer observação.

Estava numa fila de banco, dessas de dez minutos. Peguei o celular. Não porque esperasse alguma mensagem, não porque tivesse algo a fazer — peguei antes de decidir pegar. A mão foi. Quando percebi, já estava rolando uma tela que não me interessava, para não ficar parado ali sem nada.

Aquele "nada" durou uns três segundos. Foi todo o tempo que eu me concedi.

Depois passei a observar isso em outros lugares. No elevador. No semáforo. Nos vinte segundos entre fechar uma aba e abrir a próxima. No intervalo entre deitar e dormir. Em todos esses vãos, a mesma coisa: alguém preenchendo antes que o vazio comece.

E aí me ocorreu a pergunta que virou este texto. O que exatamente estamos evitando?

O tédio não é a ausência de estímulo

A resposta fácil seria dizer que o tédio é desagradável e que a gente naturalmente foge do desagradável. Mas o tédio não dói. Não é ansiedade, não é tristeza, não é medo. É um estado morno, quase neutro.

Ninguém organiza a vida para fugir de algo morno. A gente foge do que assusta.

Então o tédio deve ser outra coisa. E acho que é isto: o tédio é o momento em que nada externo está ocupando o lugar, e por isso o que é interno tem chance de aparecer.

Enquanto há estímulo, meus pensamentos são sobre o estímulo. Assisto, leio, respondo, comento — e o material da minha cabeça vem de fora. No instante em que o estímulo some, o material passa a vir de dentro. E o que vem de dentro não é escolhido por mim.

É aí que mora o susto. Não no tédio. No que o tédio deixa entrar.

O que costuma chegar nesses vãos

Na clínica, quando alguém consegue ficar quieto o suficiente para que algo suba, o que sobe raramente é dramático. Não é trauma reprimido nem revelação. É, na maioria das vezes, uma frase pequena e desconfortável.

"Não é isso que eu queria estar fazendo."

"Faz tempo que não converso com ele."

"Estou cansado de um jeito que dormir não resolve."

"E se eu não gostar disso que eu escolhi?"

São frases curtas, sem urgência aparente, do tipo que a gente consegue não escutar por anos. Elas não gritam. Elas só precisam de silêncio para serem audíveis. E silêncio é exatamente o que a gente parou de fabricar.

Não estou dizendo que o celular causa esse não escutar. Seria simples demais, e injusto com o objeto. A gente sempre teve estratégias para não ficar sozinho com o próprio pensamento — trabalho em excesso, conversa em excesso, televisão ligada em cômodo vazio. O que mudou foi a disponibilidade. Antes era preciso alguma logística para não pensar. Hoje basta um gesto, e ele cabe em três segundos de fila.

A criança que sabia disso

Toda criança que passou uma tarde inteira sem programação conhece a sequência. Primeiro vem a queixa: estou entediado. Depois vem um período ruim, arrastado, sem graça. E então, sem aviso, ela começa a brincar de alguma coisa que ninguém sugeriu.

Essa terceira etapa só existe porque a segunda foi atravessada. O jogo inventado nasce do outro lado do tédio, não antes dele.

Winnicott escreveu sobre a importância de a criança poder ficar só na presença de alguém confiável — e sobre como é dessa solidão tolerada que nasce a capacidade de criar. Não é uma tese sobre entretenimento infantil. É uma tese sobre de onde vem o que é próprio de cada um.

Nós fizemos com nossas tardes o que fazemos com as das crianças: preenchemos a segunda etapa. E depois estranhamos que a terceira não venha.

O desejo precisa de espaço para ser percebido

Aqui chego no ponto que me interessa de fato.

Desejo, em psicanálise, não é a mesma coisa que vontade. Vontade é imediata e sabe o que quer: quero café, quero sair, quero comprar. Desejo é mais lento, mais difícil de nomear, e frequentemente incômodo — porque ele aponta para algo que ainda não está lá, e às vezes para algo que contraria a vida que já montamos.

Vontade se satisfaz com estímulo. Desejo, não. E desejo só se deixa perceber quando há alguma quietude.

Por isso desconfio que a economia da atenção não nos torna apenas mais dispersos. Ela nos torna mais desconhecidos de nós mesmos. Não por censura, mas por preenchimento. Se cada intervalo em que algo poderia subir é ocupado por um conteúdo qualquer, o desejo simplesmente não encontra a hora dele.

E aí a pessoa chega ao consultório dizendo uma frase que escuto muito: "eu não sei o que eu quero". Ela não perdeu o desejo. Ela perdeu os vãos em que ele apareceria.

O que eu não estou propondo

Não vou terminar sugerindo desintoxicação digital, meditação de dez minutos ou qualquer higiene de atenção. Não porque essas coisas não sirvam, mas porque elas transformam o vazio em mais uma tarefa a executar direito — e aí ele deixa de ser vazio.

O que proponho é menor e mais difícil: da próxima vez que o intervalo aparecer, não faça nada com ele.

Não use produtivamente. Não medite. Não aproveite. Só fique.

Vai ser desconfortável nos primeiros minutos. Vai dar vontade de pegar o telefone, e a mão vai se mexer antes de você decidir. Repare nisso sem obedecer. E depois espere um pouco mais.

Alguma coisa vai chegar. Talvez uma lembrança sem motivo. Talvez uma frase incômoda. Talvez uma ideia sobre algo em que você não pensava havia meses.

Seja o que for, veio de você. E veio porque, por um instante, você deixou o tédio acontecer.


Se essas questões estão pesando de um jeito que atrapalha o seu dia, conversar em um espaço reservado pode ajudar a dar contorno ao que hoje só aparece em pedaços. Atendo online e presencialmente.

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