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Sozinhos entre conexões: a solidão da era digital pela lente da psicanálise

Sozinhos entre conexões: a solidão da era digital pela lente da psicanálise

Em junho de 2025, a Organização Mundial da Saúde publicou o relatório de sua Comissão sobre Conexão Social e cravou um número que soa como diagnóstico de época: uma em cada seis pessoas no mundo se sente solitária, e a solidão está associada a cerca de 871 mil mortes por ano — algo como cem mortes por hora. O dado é impressionante justamente pelo contraste. Nunca estivemos tão conectados. Nunca foi tão fácil enviar uma mensagem, curtir uma foto, entrar em uma chamada de vídeo com alguém do outro lado do planeta. E, no entanto, o mal-estar cresce.

A própria OMS faz uma distinção que a psicanálise acolhe com interesse: isolamento social é a falta objetiva de vínculos; solidão é o sentimento doloroso que nasce da distância entre os laços que se desejam e os que de fato se tem. Ou seja, a solidão não se mede pelo número de pessoas ao redor. É possível estar cercado e sentir-se profundamente só. É essa fenda — entre o desejado e o vivido — que nos interessa escutar.

O laço social não é um dado, é uma construção

Freud nunca tratou o sujeito como uma ilha. Já em Psicologia das massas e análise do eu (1921), ele mostra que não há vida psíquica sem o outro: nossos ideais, nossas identificações, aquilo que amamos e tememos — tudo se constrói no encontro com quem nos precede e nos rodeia. O laço social, para a psicanálise, não é um acessório da vida; é a matéria mesma de que somos feitos. Somos, desde o berço, seres de vínculo.

Mas Freud também sabia que esse laço é ambivalente. Em O mal-estar na civilização (1930), ele descreve o quanto conviver custa: a cultura nos protege da solidão e do desamparo, mas cobra um preço em renúncia pulsional. O outro é, ao mesmo tempo, aquilo de que mais precisamos e aquilo que mais nos frustra. Amamos e nos irritamos, buscamos e recuamos. A solidão contemporânea talvez seja um capítulo novo dessa velha tensão: encontramos um modo de ter o outro sem o atrito do encontro real.

A tela como promessa (e como armadilha)

É aqui que o digital entra com toda a sua sedução. A mensagem que posso apagar antes de enviar, o perfil que edito, a conversa que pauso quando quiser — tudo isso oferece o vínculo higienizado do risco. O outro chega filtrado, previsível, à distância de um toque. O problema é que o encontro que verdadeiramente nos transforma é exatamente o que não controlamos: o silêncio incômodo, o olhar que não entendo, a presença que me interpela sem legenda.

Especialistas da USP, ouvidos pelo Jornal da USP, nomeiam bem esse paradoxo. A pesquisadora Ana Paula Medeiros observa que "as conexões são instantâneas, mas efêmeras" e que "falta profundidade nos vínculos". O professor Marco Antônio de Almeida recorre à ideia de "modernidade líquida", de Zygmunt Bauman, para dizer que a tecnologia produziu uma proximidade virtual que aumentou a distância física — "há menos contato humano real. Isso mina o desenvolvimento emocional". A psicanálise acrescentaria: o que mina não é a tela em si, mas a fantasia de que se pode ter o laço sem se expor à falta.

Desejo, demanda e o vazio que a curtida não preenche

Lacan nos ajuda a entender por que tanta conexão pode deixar tão pouca marca. Ele distingue a demanda do desejo. Quando peço uma curtida, uma resposta, uma validação, faço uma demanda — e ela pode ser atendida na hora. Mas por trás de toda demanda pulsa um desejo que nenhum objeto satisfaz por completo. Por isso o alívio da notificação é tão breve: mal chega, já pede repetição. A rede social é uma máquina de demandas rápidas que raramente toca o desejo, e é essa distância que sentimos como um vazio surdo, mesmo com o feed cheio.

Há ainda a dimensão do olhar. Nas plataformas, existo à medida que sou visto, medido, comparado. Ana Paula Medeiros aponta como a comparação constante nas redes alimenta o sentimento de inadequação, sobretudo entre os mais jovens, ainda construindo a própria autoestima. Não por acaso, o relatório da OMS mostra que a solidão atinge mais os adolescentes e adultos jovens (cerca de 1 em cada 5) — a mesma faixa que mais habita as telas. Quando meu valor depende de ser visto, cada tela apagada me devolve a uma pergunta angustiante: e se, sem a vitrine, não houver ninguém ali para me sustentar?

Solidão não é sintoma a ser calado

Há uma tentação, muito de nosso tempo, de tratar a solidão como defeito a ser corrigido — mais um app, mais um grupo, mais estímulo. A psicanálise faz uma torção importante aqui: nem toda solidão é doença, e não se cura a solidão enchendo a agenda. Existe uma solidão estrutural, inevitável, própria de quem é sujeito singular e não coincide inteiramente com ninguém. Reconhecê-la é diferente de fugir dela. Muitas vezes, o excesso de conexão é justamente a fuga — um ruído para não escutar o próprio silêncio.

Mas há também o sofrimento que precisa ser levado a sério. Os dados da OMS não permitem romantizar: pessoas solitárias têm o dobro de risco de desenvolver depressão, e a solidão associa-se a quadros de ansiedade e a pensamentos de autoagressão. Aqui não se trata de filosofar sobre a condição humana, e sim de acolher clinicamente. A dor psíquica intensa e persistente não é falha de caráter nem "falta de força de vontade": é sinal de que algo pede escuta e, muitas vezes, ajuda profissional.

O que a escuta oferece que a rede não oferece

Se o mal-estar nasce da distância entre o vínculo desejado e o vivido, então o caminho não é multiplicar contatos, e sim aprofundar a relação com o próprio desejo. É disto que trata o trabalho analítico. No consultório, alguém fala e é escutado sem ser avaliado, comparado ou apressado. Não há curtida, não há métrica, não há performance a entregar. Há um outro que sustenta a presença sem exigir que o sofrimento se resolva no ato.

Esse tipo de escuta produz algo que a tela estrutura não permite: tempo. Tempo para que as palavras encontrem o que ainda não tinha nome, para que a repetição — sempre me sinto só, sempre me afasto quando alguém se aproxima — possa aparecer, ser questionada e, aos poucos, ceder. A psicanálise não promete uma vida sem solidão. Promete uma relação diferente com ela: menos como abismo do qual se foge, mais como espaço a partir do qual se pode, enfim, encontrar o outro sem se perder.

Talvez o convite mais honesto que se possa fazer, diante de uma época que confunde conexão com vínculo, seja este: desligar por um instante a demanda de ser visto e escutar o que, em nós, insiste em pedir sentido. É um começo — e, não raro, o começo de um processo terapêutico.

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