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A política que rachou a mesa de domingo

A política que rachou a mesa de domingo

As convenções partidárias acabaram de passar, os nomes estão sendo confirmados e, no dia 16, começa oficialmente a propaganda eleitoral. Daqui até outubro, o país inteiro vai falar de política — no rádio, no ônibus, no grupo da família.

Eu não escrevo aqui sobre em quem votar. Escrevo sobre o que chega ao consultório quando esse assunto entra em casa.

E o que chega, quase sempre, não é uma divergência de ideias. É um luto.

O que as pessoas dizem quando falam disso

"Eu não falo mais com meu irmão desde 2022."

"Meu pai me bloqueou."

"A gente até se vê no Natal, mas não é a mesma coisa. Ficou uma coisa entre a gente."

Essas frases aparecem, com variações mínimas, todos os anos — e aumentam muito nos anos em que há eleição. Repare que ninguém diz "discordo do meu irmão". A pessoa diz "não falo mais". O que se rompeu não foi o acordo. Foi o laço.

E aqui começa a parte interessante, do ponto de vista da escuta: quando a briga política termina em rompimento, ela quase nunca era só política.

O estranho mais próximo

Freud tem uma observação incômoda e muito precisa sobre isso. Ele chamou de narcisismo das pequenas diferenças: a tendência a reservar a maior hostilidade não para os que nos são radicalmente estranhos, mas justamente para os mais próximos, os quase iguais.

É contraintuitivo até você olhar em volta. O desconhecido no elevador com opinião oposta à sua provoca, no máximo, um revirar de olhos. O seu irmão, com quem você dividiu quarto, sobrenome, história e mesa, provoca fúria.

Porque com o desconhecido não há nada a defender. Com o irmão, sim. Se somos tão parecidos, feitos da mesma matéria, criados pelas mesmas pessoas — então o que garante que eu sou eu? A diferença precisa ser marcada com força justamente onde ela é pequena. E quanto menor ela é, mais violentamente precisa ser sublinhada.

A política oferece, num ano eleitoral, um material perfeito para isso: pública, moralizada, com dois lados nítidos e um calendário que obriga todo mundo a se posicionar. É a linha divisória mais disponível do mercado.

O que estava embaixo antes

Na clínica, quando a gente demora um pouco mais nessa história, costuma aparecer outra camada.

O irmão com quem se rompeu por política era, muitas vezes, o irmão preferido do pai. A mãe com quem não se fala mais era a mãe que nunca perguntou como você estava. O tio que agora "virou insuportável" já era invasivo em 1998.

Não estou dizendo que a divergência é falsa — ela é real e as consequências dela também. Estou dizendo outra coisa: um conflito antigo, que nunca encontrou palavra, encontra num tema público a forma legítima de finalmente ser dito. É mais fácil brigar por um candidato do que dizer "você nunca me viu".

A psicanálise chama isso de repetição. Não é que a pessoa queira brigar. É que existe algo que nunca foi elaborado e que retorna — cada vez com uma roupa nova, cada vez parecendo ser sobre outra coisa.

Quando a briga finalmente estoura, há inclusive um alívio. Uma tensão de trinta anos ganhou um nome. O problema é que o nome está errado, e por isso o alívio não dura.

A tela transforma gente em caricatura

Há um agravante contemporâneo que não pode ser ignorado, e ele é técnico antes de ser moral.

Boa parte da nossa exposição ao outro hoje é mediada por um sistema que seleciona, entre tudo o que ele publicou, exatamente o que mais provoca reação. Você não vê seu tio. Você vê o recorte mais indefensável do seu tio, entregue no momento em que você está mais cansado para lidar com ele.

O efeito psíquico disso é preciso: o outro deixa de ser uma pessoa contraditória, com história e ambivalência, e vira um tipo. Uma posição. Um bloco.

E aqui está o ponto que me parece decisivo: não se conversa com uma caricatura. Não porque ela seja má, mas porque ela não tem interior. Não há para onde a fala ir. O diálogo exige que eu suponha, do outro lado, alguém dividido — que também duvida, também teme, também não sabe tudo. Assim que essa suposição cai, sobra ataque.

O que eu escuto, e o que eu não faço

Quando alguém traz isso para a sessão, não é meu trabalho arbitrar. Não tenho a menor ideia de quem tem razão, e a análise seria um lugar bastante ruim para descobrir.

O que interessa é outra pergunta, e ela é sempre pessoal: o que essa briga está protegendo?

Às vezes protege de uma dependência que incomoda — brigar com o pai é uma forma de não precisar dele. Às vezes protege de um pertencimento que sufoca — a família inteira pensa igual, e discordar foi o único modo encontrado de existir separadamente. Às vezes protege de uma culpa antiga: é mais suportável odiar o irmão por causa de uma eleição do que sentir que se afastou dele por não ter aguentado o que ele viveu.

E às vezes, precisa ser dito, não protege nada. Às vezes a pessoa se afastou de alguém que a machucava de verdade, e o desacordo político só deu ao afastamento um contorno finalmente dizível. Nesses casos, o trabalho não é reaproximar. É poder nomear a perda sem que ela venha acompanhada de culpa.

Não existe resposta pronta. Existe uma pergunta feita devagar, num lugar onde ela pode ser feita sem que ninguém tenha que ganhar a discussão.

Sobre voltar a falar

Me perguntam, com frequência, se vale a pena tentar reatar.

Não tenho uma recomendação geral, e desconfio de quem tem. Mas tenho uma observação da clínica: quem consegue voltar a falar quase nunca voltou porque um convenceu o outro. Voltou porque, em algum momento, uma perda ficou maior que a razão.

A frase que costuma marcar essa virada não é "eu estava errado". É algo mais simples e mais difícil: "eu senti sua falta".

Dizer isso exige abrir mão de ganhar. E é exatamente por isso que custa tanto.

Uma pergunta para os próximos meses

Se você está entrando neste ano eleitoral com uma cadeira vazia na sua mesa, deixo uma pergunta para carregar — sem pressa de responder:

O que você perdeu, além da conversa?

Não é uma pergunta retórica. É a pergunta com a qual eu trabalharia, se essa história chegasse ao meu consultório. Porque debaixo da opinião que rachou a mesa quase sempre há um vínculo específico, com uma história específica, cuja falta ninguém está conseguindo nomear.

A política passa. Outubro chega, alguém ganha, alguém perde, e a vida segue. O que não passa sozinho é o silêncio que ficou entre duas pessoas que se conheciam desde sempre.

Esse silêncio, ao contrário do resultado da eleição, ainda depende de você.

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