Uma pessoa me contou, faz algumas semanas, sobre uma reunião de avaliação no trabalho. Foram quase quarenta minutos de conversa. Trinta e cinco deles foram de reconhecimento: entrega boa, time satisfeito, projeto no prazo. Nos últimos cinco, o gestor mencionou que ela poderia ter comunicado uma mudança com mais antecedência.
Ela saiu de lá pensando na comunicação atrasada. Pensou naquilo no elevador, no carro, no jantar e às três da manhã. Quando me contou, uma semana depois, lembrava a frase da ressalva quase palavra por palavra. Dos elogios, lembrava vagamente que "foram positivos".
Quarenta minutos, e o que sobrou foram cinco.
A conta que não fecha
Essa desproporção aparece no consultório com uma regularidade que já não me surpreende. Muda o cenário: às vezes é o trabalho, às vezes é a família, às vezes é um comentário de alguém que a pessoa mal conhece. O que não muda é a assimetria. A crítica adere. O elogio escorre.
É tentador explicar isso como uma questão de foco, e resolver com conselho: "anote as coisas boas", "pratique gratidão", "não dê tanta atenção ao negativo". Já ouvi pacientes chegarem tendo tentado exatamente isso, com listas de conquistas guardadas no celular. Funciona por alguns dias. Depois o elogio volta a não grudar.
Ele não gruda porque não há onde ele grudar. E é aí que a conversa começa a ficar interessante.
A quem se dirige o elogio
Quando alguém me diz "eu não consigo aceitar elogio", costumo perguntar uma coisa que soa estranha: aceitar em nome de quem?
A pergunta não é retórica. O elogio chega endereçado a uma pessoa. Mas dentro de cada um de nós existe uma espécie de instância que julga, que compara, que mede o que fizemos contra uma régua que quase nunca fomos nós que escolhemos. A psicanálise tem nomes para isso. Falamos em ideal do eu, aquilo que gostaríamos de ser, e falamos em supereu, essa voz que vigia e cobra, e que costuma ser bem menos generosa do que qualquer chefe.
O elogio vem de fora e se dirige ao que a pessoa fez. A régua está dentro e mede o que ela deveria ser. Não há encontro possível entre os dois. Por isso o elogio passa reto: ele não fala a mesma língua da instância que precisaria ser convencida.
A crítica, ao contrário, encontra ressonância imediata. Ela não precisa se apresentar, porque a voz interna já dizia aquilo antes. A ressalva do gestor não introduziu nada novo naquela paciente. Ela confirmou algo que já estava dito ali dentro, provavelmente há décadas.
É por isso que a crítica dói de um jeito específico: não pelo conteúdo, mas pela sensação de que alguém finalmente viu o que a pessoa já sabia sobre si.
De onde vem a régua
Quando essa medida entra em análise, ela quase nunca é impessoal.
Há regras herdadas de casa que ninguém nunca enunciou em voz alta e que todo mundo obedeceu. Há frases de infância que ficaram, e frases que não ficaram mas cujo tom permaneceu. Há, com frequência, o desejo de alguém que não estava explicitado e que a criança tentou adivinhar, porque criança adivinha antes de entender.
Muita gente descobre, no meio do processo, que passou a vida tentando ser aprovada por uma instância que não existe mais como pessoa. O pai morreu, a professora foi esquecida, a família mudou de forma. A régua, porém, continuou funcionando com autonomia, como um dispositivo que ficou ligado depois que a casa foi desocupada.
E aqui está o ponto que me parece mais delicado. Não se trata de dizer que a régua está errada e trocá-la por outra mais gentil. Isso seria apenas mudar o conteúdo mantendo o mecanismo. A pergunta que a escuta permite fazer é outra: o que essa exigência está sustentando? Porque ela costuma estar sustentando alguma coisa.
Para que serve não se dar por satisfeito
É raro que a autoexigência seja pura tortura. Ela quase sempre presta um serviço.
Há quem se mantenha na cobrança porque parar de cobrar significaria admitir que já é possível descansar, e descansar dá medo. Há quem sustente a régua alta porque ela organiza a vida: sem o alvo impossível, a pergunta que sobraria seria "o que eu quero, afinal", e essa pergunta é mais assustadora do que qualquer meta de trabalho. Há quem mantenha o vínculo com alguém importante justamente pela via da cobrança, porque foi assim que aquele vínculo se estabeleceu, e abandonar a exigência pareceria abandonar a pessoa.
Nesses casos, o elogio não é só ineficaz. Ele é ameaçador. Aceitá-lo implicaria desmontar um arranjo que está segurando outras coisas.
Por isso desconfio de qualquer promessa de "aprender a receber elogios" como técnica. O que costuma acontecer numa análise não é a pessoa passar a gostar de ouvir que foi bem. É ela descobrir do que estava se protegendo.
O que muda quando alguém escuta
Não prometo cura para isso, e não seria honesto prometer. O que acontece na clínica é mais lento e menos espetacular.
Em algum momento, a pessoa começa a conseguir separar duas coisas que estavam coladas: o que ela fez e o que ela é. Quando essa separação começa a operar, a crítica volta a ter o tamanho que tem, que é o tamanho de um comentário sobre uma ação específica. E o elogio, curiosamente, começa a incomodar menos, porque deixa de ser um veredito sobre a totalidade da existência e passa a ser apenas alguém dizendo que gostou de alguma coisa.
Outra mudança que costumo observar é no tempo verbal. A frase "eu sou insuficiente" é uma sentença. A frase "eu me cobro dessa maneira desde que" é uma história. Histórias podem ser recontadas. Sentenças, não.
Nada disso passa por convencer alguém do próprio valor. Nunca vi isso funcionar, e desconfio de quem afirma que funciona. O que passa a ser possível é outra coisa: notar a régua enquanto ela está sendo usada, em vez de descobrir depois que ela decidiu tudo sozinha.
Daquela reunião de quarenta minutos, o que me interessa não é convencer a paciente de que os trinta e cinco valiam mais do que os cinco. Aritmética não resolve isso. O que me interessa é entender por que aqueles cinco minutos encontraram a porta aberta.
A porta é que é o assunto.