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Psicanálise e Cultura

A fome que não era fome: o que a psicanálise escuta no “ruído da comida”

A fome que não era fome: o que a psicanálise escuta no “ruído da comida”

"Se eu estava entediada, comida. Triste, comida. Chateada, comida." A frase, dita por uma paciente a pesquisadores de Stanford, resume a vida de quem convive com o que os médicos passaram a chamar de ruído da comida — o fluxo interno e incessante de vontades, cálculos e negociações em torno do que se vai comer. Em 2026, um número crescente de pessoas descobriu que uma injeção semanal desliga esse ruído. A comida, de repente, para de dar ordens. E no silêncio que fica, surge uma pergunta que nenhuma bula responde: o que, exatamente, foi calado?

O ruído nunca foi só fome

A fome é uma necessidade. Tem objeto e tem fim: come-se, o estômago se enche, ela cessa. O ruído da comida é outra coisa. A pesquisa mais recente — uma revisão sistemática publicada na Physiology & Behavior — mostra que os medicamentos da família do GLP-1 reduzem a resposta do cérebro aos sinais de comida, sobretudo à comida muito calórica, e abaixam o que os cientistas chamam de comportamento de recompensa. Ou seja: eles não miram o estômago vazio. Miram o desejo de comer, aquilo que continua falando mesmo quando não há fome nenhuma.

Freud tinha um nome para essa diferença. De um lado, a necessidade, que um objeto satisfaz e apaga. De outro, a pulsão: uma pressão constante, interna, que nunca encontra um objeto capaz de saciá-la de vez. A pessoa que come quando está triste não está com fome. Está tentando tapar, com comida, um buraco que não fica no estômago.

Comer para não sentir

Repare no ritmo da frase da paciente: entediada, comida; triste, comida; chateada, comida. É sempre o mesmo gesto voltando, qualquer que seja o motivo. A psicanálise chama isso de repetição — e a repetição, quando insiste desse jeito, costuma ser a marca de um sintoma. Não um defeito a corrigir, mas uma solução que o sujeito encontrou, meio às cegas, para não ficar diante de algo insuportável.

O que seria esse algo? Muitas vezes, a angústia. Comer depressa, sem fome, é uma forma de baixar o volume de um mal-estar que não tem nome. A boca faz o que a palavra ainda não conseguiu: dá um contorno, uma ocupação, um objeto para o que dói. Nesse sentido, o "ruído" não era só barulho. Era uma mensagem cifrada — um jeito torto de dizer que faltava alguma coisa.

A primeira refeição foi também o primeiro laço

Vale lembrar de onde vem essa confusão entre comer e sentir. Para o bebê, ser alimentado e ser amado são, no começo, o mesmo acontecimento: o alimento chega junto com o colo, o cheiro, a voz de quem cuida. Freud notou que a fome é a primeira necessidade a ser satisfeita — e que, coladas a essa satisfação, ficam as primeiras marcas do afeto. O seio não nutre só o corpo; inaugura o laço. Por isso, a vida inteira, a comida carrega um resto disso: um traço de amor, de presença, de consolo. Quando alguém come para não se sentir só, está, sem saber, tentando reencontrar aquela primeira cena em que ser saciado e ser querido eram a mesma coisa. Não é exagero, então, que a imprensa tenha perguntado, em 2026, se esses remédios não estariam também mexendo na nossa "fome de amor".

O que Lacan chamava de falta

Aqui a psicanálise dá um passo que a neurociência não dá. Para Lacan, o desejo não nasce da ausência de um objeto que se poderia, enfim, conseguir. Ele nasce de uma falta estrutural, constitutiva — somos feitos de um vazio que nenhum objeto preenche por completo. Os estudos acadêmicos dedicados a esse ponto, na tradição lacaniana, insistem numa ideia difícil e bonita: o objeto do desejo não é aquilo que o satisfaz, é aquilo que o causa. O desejo se organiza em torno do que falta, não do que enche.

Se isso for verdade, a comida, para quem sofria com o ruído, funcionava como um substituto. Um tampão para uma falta que é de outra ordem — falta de afeto, de sentido, de reconhecimento, de uma palavra que nunca foi dita. Comer não resolvia; adiava. E é justamente por não resolver que o gesto precisava se repetir, dia após dia.

Quando o sintoma se cala

Chegamos ao ponto delicado. As reportagens de 2026 vão além da balança. Fala-se de uma "personalidade Ozempic", de pessoas que perdem o apetite não só pela comida, mas por outras coisas — o álcool, as compras, o cigarro e, às vezes, um certo brilho pela vida. A ciência aqui ainda é incerta e até contraditória: alguns estudos sugerem que esses remédios poderiam até reduzir a anedonia, a incapacidade de sentir prazer; outros relatos apontam o contrário. Ninguém sabe, ainda, o alcance real do que a injeção toca quando toca o sistema de recompensa.

E é exatamente essa incerteza que abre o espaço da psicanálise. Porque, se o ruído era um sintoma — uma mensagem —, silenciá-lo sem escutá-lo não faz a falta desaparecer. A falta não some: ela se cala, ou migra. O sujeito emagrece o corpo e, às vezes, sem perceber, emagrece o desejo junto. O buraco continua ali, só que agora sem a voz que, a seu modo desajeitado, o denunciava.

O convite não é contra o remédio

Nada disso é um argumento contra a medicação. Para muita gente, o ruído da comida era uma tirania diária, e calá-lo é um alívio verdadeiro, às vezes libertador. Um corpo que deixa de ser governado pela compulsão é um corpo que ganha, pela primeira vez em anos, um pouco de folga — e essa folga pode, inclusive, ser a condição para finalmente escutar o que antes era ensurdecedor. O problema não está em silenciar o barulho. Está em confundir o silêncio com uma resposta.

Porque a pergunta que a comida abafava continua de pé: do que, afinal, eu tinha fome? Emagrecer não a responde. E é aqui que a escuta analítica tem algo a oferecer — não como rival da medicina, mas como o lugar onde aquela mensagem cifrada pode, enfim, ser dita em palavras. Um espaço para descobrir o que estava por baixo do apetite, o que se pedia quando se pedia comida, que afeto se tentava engolir.

O prato, agora, está vazio e limpo. O ruído, cessado. Resta a parte que nenhuma injeção alcança: escutar o que aquela fome vinha, há tanto tempo, tentando dizer. Talvez seja esse o começo de outra conversa — não com a geladeira, mas com um analista e, por fim, consigo mesmo.

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