Chega no consultório quase sempre disfarçado de outra coisa. Alguém me diz que anda cansado, que dorme mal, que perdeu o gosto por coisas que antes faziam sentido. E então, em algum ponto da sessão, surge a cena: estava deitado, rolando o feed, viu a viagem de alguém, a casa de alguém, o corpo de alguém, o casamento aparentemente feliz de alguém. E desligou o aparelho com um aperto no peito que não sabia nomear. Não era exatamente tristeza. Era mais parecido com a sensação de estar em falta. De estar atrasado numa corrida cujas regras ninguém explicou.
Os números ajudam a dimensionar o terreno. Estima-se que o brasileiro passe, em média, várias horas por dia em redes sociais, uma das maiores médias do mundo. É muita coisa. É mais tempo do que a maioria das pessoas passa conversando olho no olho com quem ama. E uma parte considerável desse tempo é gasta naquilo que a pesquisa costuma chamar de comparação ascendente: olhar para cima, para quem aparenta ter mais, ser mais, viver mais. Estudos recentes sugerem que essa comparação para cima tende a se associar a uma autoestima mais baixa, com a inveja funcionando como uma espécie de ponte entre o uso passivo das redes e o mal-estar. Vale a honestidade: os efeitos descritos pela literatura costumam ser modestos, condicionais, variam muito de pessoa para pessoa. Não existe aqui um veredicto mecânico, a tela que faz mal a todos do mesmo jeito. O que existe é um convite, repetido milhares de vezes ao dia, a se medir. E é desse convite que quero falar, não como quem mede sintomas, mas como quem escuta o que essa medição faz com o desejo de uma pessoa.
O desejo nunca é só meu
A psicanálise tem uma intuição que à primeira vista soa estranha: o desejo não nasce de dentro de nós como uma fonte pura. Ele se forma no campo do outro. Desde muito cedo, antes mesmo de saber o que queremos, queremos o que percebemos que o outro valoriza, o que faz o olhar do outro se acender. A criança não deseja apenas o brinquedo; deseja o brinquedo que o outro deseja, deseja ser aquilo que faz a mãe sorrir. Lacan dizia, numa fórmula que atravessa toda a clínica, que o desejo do homem é o desejo do Outro. Não é uma maldição. É a condição de qualquer um que se constitui na linguagem, na relação, na cultura. Desejamos sempre com os olhos parcialmente emprestados.
Ora, se o desejo já é, por estrutura, mediado pelo olhar do outro, imagine o que acontece quando construímos uma máquina cuja função é justamente exibir, sem pausa, o que o outro tem, faz e mostra. As redes não inventaram a comparação, isso é importante dizer. A inveja é tão antiga quanto a humanidade, e a vizinha que tinha o jardim mais bonito sempre existiu. O que mudou foi a escala e a curadoria. Antes eu comparava minha vida com a de algumas dezenas de pessoas que conhecia de perto, com suas falhas visíveis. Agora comparo minha intimidade inteira, com seus dias cinzentos e suas contas a pagar, com o melhor instante editado de centenas de pessoas que mal conheço. Comparo meus bastidores com o palco alheio.
A inveja e a falta que ela denuncia
Aqui preciso desfazer um mal-entendido. No senso comum, a inveja é um defeito moral, algo de que devemos nos envergonhar. Na escuta clínica, ela é antes uma informação. A inveja aponta para um lugar onde algo nos falta, ou onde acreditamos que falta. Ela é dolorosa precisamente porque toca a ferida mais antiga de qualquer um: a percepção de que não somos completos, de que há um furo em nós que nenhum objeto preenche por inteiro.
A psicanálise chama isso de falta, e é fundamental entender que ela não é um problema a ser resolvido. A falta é constitutiva. É ela que nos põe em movimento, que faz desejar, criar, amar, buscar. Um sujeito sem falta seria um sujeito morto, saciado, sem direção. O sofrimento não vem de ter falta. Vem de não suportá-la, de tentar tapá-la o tempo todo com a ilusão de que existe alguém, em algum lugar, que não a tem.
E é exatamente essa ilusão que o feed vende. Cada imagem cuidadosamente escolhida sussurra: aqui há alguém pleno, alguém que chegou, alguém para quem não falta nada. A comparação ascendente é, no fundo, o encontro com uma fantasia de completude que projetamos no outro. Invejamos não a vida real daquela pessoa, que desconhecemos, mas a completude imaginária que atribuímos a ela. Invejamos um fantasma. E o mais cruel é que, quando somos nós a postar, fazemos o mesmo do outro lado: oferecemos ao olhar alheio uma versão nossa sem falta, alimentando em quem nos vê a mesma fome que sentimos ao ver os outros. Todos curadores de um museu de plenitudes que ninguém habita.
Por que o vazio nunca enche
Quem rola o feed em busca de alívio conhece a sequência: a tela acende, há um instante de absorção, e logo um esvaziamento. Buscamos algo ali e não encontramos, então deslizamos para o próximo, e o próximo. Esse gesto repetido tem a forma exata daquilo que na clínica chamamos de uma busca que não se deixa satisfazer.
Quando organizo meu desejo em torno de medir-me pelo olhar do outro, eu o entrego a uma instância impossível de contentar. Sempre haverá alguém com mais. A régua não tem fim. Mesmo que eu alcance o que invejo, num primeiro momento, a sensação de plenitude evapora rápido e a comparação se desloca para um novo ponto, mais acima. Não é falha minha em conquistar. É a própria estrutura do mecanismo: ele não foi feito para preencher, foi feito para manter a fome ativa. As redes têm interesse econômico nessa fome contínua, e nisso elas são geniais. Mas a engenharia delas só funciona porque encontra em nós um terreno fértil, uma disposição antiga a buscar fora a confirmação de que valemos algo.
O vazio que a comparação alimenta, então, não é o vazio da falta estrutural, que é fértil. É um vazio diferente, estéril, produzido pela tentativa incansável de fugir da falta. Quanto mais comparo, mais reforço a crença de que sou insuficiente e de que a suficiência mora sempre no outro. Cavo o buraco no mesmo gesto com que tento tapá-lo.
O que muda quando se passa a falar
No consultório, não proponho a ninguém que abandone as redes, nem trato a tela como vilã. Seria simplório, e quase sempre inútil. O que faço é outra coisa: convido a pessoa a transformar aquele aperto mudo no peito em fala. Porque o aperto, enquanto permanece sem palavra, age sozinho. Ele empurra para mais comparação, para mais rolagem, para mais retração diante da própria vida. Quando começa a ser dito, algo se desloca.
Pergunto, por exemplo: o que exatamente você inveja naquela imagem? E quase nunca a resposta é o objeto literal. Por baixo da inveja da viagem alheia mora um desejo de liberdade que a pessoa não se autoriza. Por baixo da inveja do casal feliz, uma fome de vínculo, ou um luto não feito por um amor que terminou. A comparação, quando escutada com cuidado, deixa de ser uma sentença sobre o quanto valemos e vira uma pista sobre o que de fato queremos e ainda não nos demos permissão de buscar. A inveja, lida assim, devolve a pessoa ao seu próprio desejo, em vez de mantê-la presa ao desejo emprestado do feed.
Esse é o movimento central de um trabalho de análise: sair de uma vida regida pelo olhar do Outro, em que existo para ser visto e validado, e reencontrar um desejo que seja mais meu, com toda a falta que ele carrega. Não para nunca mais sentir inveja, isso seria mentira. Mas para que a inveja, quando vier, possa ser uma pergunta sobre mim, e não um veredicto sobre minha insuficiência. Se isso te toca de algum modo, vale conversar; é parte do que escuto todos os dias num atendimento de psicanálise online, e é também o tipo de tema que costumo retomar em outras reflexões aqui no blog.
Talvez o gesto mais radical, hoje, não seja deletar o aplicativo. Seja conseguir ficar, por alguns minutos, diante do próprio tédio, da própria falta, sem correr para a tela. Suportar o vazio fértil sem confundi-lo com fracasso. É ali, nesse silêncio incômodo que não preenchemos, que costuma despontar a primeira fagulha de um desejo que é genuinamente nosso. E desejo que é nosso, ainda que falte, não deixa o vazio estéril que a comparação produz. Ele nos põe a viver.